top of page

Mulheres Múltiplas

  • Foto do escritor: Jornalismocdh
    Jornalismocdh
  • 9 de set. de 2019
  • 3 min de leitura

Descrição para cegos: Desenho de um boneco palito no centro com várias setas apontadas para ele e cada uma delas traz uma palavra que caracteriza o boneco. “Race”, “Education”, “Sexuality”, “Ability”, “Age”, “Gender”, “Culture”, “Language” e “Class”. Fonte: Imagem para ilustrar o artigo ‘Complexity of intersectionality: relevance to African research’, no site ‘gender.cgiar.org’.


Por Maria Catharina Belo


O artigo ‘Femicide: Sexist Terrorism Against Women’, publicado na compilação ‘The Politics of Women Killing’ (1992) é uma das produções desenvolvidas pelas pesquisadoras Jane Caputi e Diana E. H. Russell. O texto analisa as políticas dos níveis de violência de gênero contra as mulheres, que tem como manifestação mais grave desse “continuum” (violências simbólicas, subalternização e exclusão num movimento cíclico, que pretende manter as mulheres apartadas de seus espaços) o feminicídio, homicídio com motivação misógina.

Diana Russel usou o termo ‘femicídio’ pela primeira vez, publicamente, em 1976, quando no Tribunal Internacional Sobre Crimes Contra as Mulheres, que aconteceu em Bruxelas. O conceito descrevia o assassinato de mulheres pelo fato de serem mulheres, o que caracterizava terrorismo social ou o genocídio de mulheres.

Quando palavras mais abrangentes, genéricas, como assassinato ou homicídio, são usadas para indicar uma violência que advém diretamente da cultura patriarcal, são ignorados a representação daquele ato e seu caráter político. Então, ao propor o uso do termo “femicide”, que ainda hoje traz debates acerca da semântica de suas variações, as autoras acentuam a importância de explicitar e definir no processo de uma análise pormenorizada do terror sistemático e da reprodução de padrões culturais de opressão.

A misoginia, além de incentivar a violência de gênero contra as mulheres, cria estereótipos que fazem com que a imprensa, influenciadora da opinião pública, distorça a abordagem dessas violências a depender de quem são as vítimas. Raça, etnia, classe, ocupação (no que diz respeito a atividade que exerce na sociedade), proximidade física do padrão machista estabelecido e idade, são fatores que definem se as violências serão mais ou menos discutidas.


“O fracasso das feministas acadêmicas em reconhecer a diferença como uma força crucial é o fracasso em transcender a primeira lição patriarcal. Em nosso mundo, dividir e conquistar tem que se tornar definir e empoderar.” – Audre Lorde


Não são raras as vezes em que as produções acadêmicas feministas são identificadas como arrogantes por ignorar ou abordar com superficialidade aspectos de diversidade que devem ser primeiros a um movimento que pretende desarticular uma ordem patriarcal, racista e classista. É necessário que se leve em conta, por exemplo, que o feminismo mais amplo foi se estabelecendo enquanto uma supremacia racial estava sendo questionada, desconstruída, e a teoria feminista não pode se apartar dessas questões. Esta é uma sociedade assimétrica, são múltiplas as formas de desigualdade.

A escassez de pesquisas sobre violência de gênero contra mulheres que se atentem aos recortes geográficos, raciais, geracionais, que se interligam em diferentes pontos na opressão sexista, anda junta com a ineficiência dos órgãos públicos em especificar os dados e mapear essas ações. O processo de politização das desigualdades de gênero vai além de uma criminalização desacompanhada de outras medidas sociais, porque supõe uma atenção às diferentes demandas subjacentes a cada grupo.

Para que a palavra interseccionalidade seja parte das discussões majoritárias de forma a não distorcer suas complexidades é necessário que se insista, sem descanso, no exame das diferenças. O contexto das mulheres refugiadas, das mulheres pobres, das terceiro-mundistas, das lésbicas. Saber de onde parte para tentar entender para onde está indo, construindo um feminismo plural e sem lacunas.

Comentários


bottom of page