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Mulheres Em Pauta: gênero e violência na agenda midiática oito anos depois

  • Foto do escritor: Jornalismocdh
    Jornalismocdh
  • 9 de set. de 2019
  • 6 min de leitura

Atualizado: 10 de set. de 2019


Descrição para cegos: Na esquerda, imagem da professora Sandra Raquew em perfil. Na direita, imagem de capa do livro Mulheres Em Pauta, trazendo parte do rosto de uma mulher; o braço, fora do plano da foto, cobre sua boca. Fonte: Divulgação blog Sandra Raquew | www.sandraraquew.com.br


Por Ana Lívia Macêdo


Publicado em 2011, Mulheres Em Pauta – gênero e violência na agenda midiática resulta de uma pesquisa de três anos da Profª Drª Sandra Raquew Azevedo sobre a veiculação na imprensa de casos de violência contra a mulher. O foco do trabalho são as práticas de Agendamento pelos jornais paraibanos, relacionando-as às lutas históricas de grupos locais (ONGs Cunhã – Coletivo Feminista e Centro da Mulher 8 de Março). A obra debruça-se, também, sobre os casos de homicídios das estudantes Maria Cristina Batista (1990) e Márcia Barbosa (1998) e a implantação do Programa de Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência Sexual – PAMVVS (1995).

Nesta entrevista, a docente reflete sobre os impactos da maior veiculação de casos de feminicídio nos veículos de comunicação e as mudanças ao longo dos oito anos desde a primeira edição da obra.


Pergunta : Oito anos após o lançamento de Mulheres Em Pauta, percebe-se uma inversão na lógica da comunicação tradicional, começando pelos jornais, que foram objetos de estudo da obra, e hoje já não desempenham um papel tão ativo. Como o agendamento midiático sofreu alterações durante os últimos anos, especialmente nas múltiplas plataformas de comunicação, e como essas mudanças interferiram no tratamento dado à questão da violência contra a mulher?

Resposta: Eu considero que teve uma mudança na conjuntura da informação e no próprio jornalismo mediante também ao enxugamento das redações e ao desaparecimento de muitos jornais impressos. Então, você tem uma nova configuração de produção de conteúdo jornalístico dentro das plataformas digitais no sentido dos portais que diferem no tocante às mídias sociais, que é uma outra dinâmica. Em relação ao Agendamento em torno dos crimes contra as mulheres, seja violência doméstica ou feminicídio, a gente vê hoje muito mais fortemente uma presença mais massiva das mulheres produzindo conteúdo jornalístico, no sentido de uma autonomia, de projetos independentes de jornalismo voltados à cobertura e à informação com viés de gênero. Outra coisa importante que também teve impacto foram os marcos regulatórios. Acho que você ter uma Lei Maria da Penha, uma Lei do Feminicídio, com a inclusão também de pessoas trans, são avanços dos marcos legais que repercutem no tratamento jornalístico. Em relação às mídias sociais, embora as pessoas queiram ser levadas a achar que elas pautam, de que elas provocam muito o Agendamento, as mídias têm se reportado muito ao que a mídia tradicional pontua.


P: A Lei do Feminicídio, que tipifica o assassinato de mulheres em virtude de seu gênero, entrou em vigor em 2015 no Brasil. Esse pode ser considerado um fator decisivo para a readequação dos noticiários ao tratamento dado nos casos de assassinato das mulheres? 

R: Claro. Você criar tipologia é muito importante. Eu acho que é um marco jurídico, mas é um marco também do ponto de vista da informação e da representação social dos fatos. É claro, a gente ainda está no espectro do desafio, de que essa tipificação seja incorporada dentro do cotidiano das notícias. Lamentavelmente, ainda é um desafio. Entretanto, o feminicídio fala a respeito de uma questão pública em torno dos crimes a partir do viés de gênero, da dominação de um gênero sobre o outro, de uma cultura instituída de matar mulheres pelo fato de elas serem mulheres. Isso marca muito o sentido e traz um mapa cultural muito importante para o tratamento dos casos. Quando você coloca claramente que é um feminicídio, você constrói no imaginário da população, mostrando essa face perversa da cultura patriarcal ou da cultura machista. Não é como a gente gostaria que fosse, tem suas limitações, mas é algum momento dentro do interior dessa construção narrativa. 


P: Como atitudes reacionárias, tais quais a do apresentador Sikêra Júnior [Em junho de 2018, o comunicador proferiu, ao vivo, comentários misóginos e foi indiciado pelo Ministério Público], dificultam a implantação de uma agenda de combate à violência?

R: Eu acho que más condutas vão existir, lamentavelmente. Independentemente de quem seja o sujeito ou a pessoa que pontua daquela forma. Eu acho que o mais importante nessas situações é ver também e perceber como a sociedade vai construindo outro patamar de percepção e de enfrentamento à discriminação de gênero, à violência de gênero, que há uma tendência de querer abafar, de querer silenciar através de um discurso contra o tratamento ou à problematização ou à reflexão em torno das relações de gênero, mas que socialmente está posto. Culturalmente, está posto. E principalmente hoje nas gerações mais novas e isso eu acho que não há como retroceder tanto, apesar de todo o conservadorismo que ainda há, inclusive no contexto da juventude. Então, às vezes, tem um processo social que você não pode barrar, por mais que exista posturas violentas e machistas, mas elas não vão se sobrepor, porque faz parte de uma dinâmica de transformação da vida social também.


P: Em Mulheres Em Pauta, há um destaque para a importância das feministas na construção de uma agenda pública de veiculação dos casos de violência e também para o rompimento de um binômio de espetacularização-invisibilidade de pautas das mulheres. Mediante ao atual cenário político-social, é possível visualizar um retrocesso nesse quadro?

R: Eu acho que sim. Nós já estamos vivendo uma tentativa de retroceder aquilo que já foi conquistado do ponto de vista das políticas públicas. E aí, as mulheres, os homens, os jovens têm um papel muito importante. As mulheres, especialmente, porque atinge a elas. Então, há uma organização coletiva também Você não vai sustentar uma sociedade equilibrada, saudável e com desenvolvimento dentro de uma esfera de retrocesso político, cultural e social. Infelizmente, algumas coisas, no sentido de uma pressão, existem, mas eu acho que a sociedade está mais vigilante também e os grupos organizados ou que mantiveram historicamente uma dinâmica de organização. A sociedade fragmentada, ultra individualizada, isolada, ela contribui para o retrocesso, para a perda de direitos. Onde há um processo de coletividade, de organização, de participação social, você vê uma abrangência dos sujeitos dentro da esfera pública e isso é muito importante para a cidadania, para o direito, para o desenvolvimento.


P: Os avanços trazidos pela maior exposição dos casos de violência são um panorama importante e, por muitos, considerado como ponto final da luta das mulheres. Quais modificações ainda precisam ser instauradas, sobretudo pelos próprios jornalistas, para que haja não só visibilidade, mas também debate e veiculação construtiva para a causa das mulheres?

R: Acho que a própria questão de um jornalismo de proximidade é um vetor importante na ampliação, primeiro no conhecimento que é gerado pelo jornalismo, também do campo do trabalho, da participação dos profissionais e do tratamento da narrativa sobre a realidade. O jornalismo está sendo muito atacado e para quem é contra a democracia é muito importante atacar os jornalistas e o jornalismo. Porque, como instituição fiscalizadora, o jornalismo tem esse papel, essa importância social, esse marco do ponto de vista da sociedade democrática. Os jornalistas também têm aprendido muito com a dinâmica organizativa das mulheres no sentido da produção de conteúdo informativo. Eu acho que isso vai ser um contínuo, no sentido da forma de tratamento. É importante que a gente construa também um debate sobre a ética e as consequências da violação da ética no exercício profissional. E, em relação às mulheres, eu acho que elas estão também tendo essa atuação muito importante no campo da informação, da comunicação e do jornalismo e é não só visibilizar, é trazer também um mapa de compreensão e um mapa de alternativas. Eu acho que hoje tem muitas alternativas no campo da informação que tem a ver com o trabalho das mulheres jornalistas, não só a feminização da profissão. A feminização foi uma etapa importante, mas, para além da feminização, a consciência de que as mulheres dentro do exercício profissional também passam por situação de assédio, de violação e de desigualdade. Então, as jornalistas também e os jornalistas, de modo geral, precisam ter consciência desses entraves e desses problemas dentro da rotina de trabalho.


Sandra Raquew dos Santos Azevedo é professora do curso de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal da Paraíba. Quando não está pesquisando sobre questões de gênero e elaborando novos projetos, escreve uma coluna no Jornal A União

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