Memórias de uma Maria
- Jornalismocdh

- 9 de set. de 2019
- 4 min de leitura

Descrição para cegos: Na imagem, Maria de Fátima, personagem do perfil, está sentada e aparece em um enquadramento acima da cintura. O plano de fundo da foto é uma parede revestida com cerâmica quadriculada.
Por Juliana Alves
A violência contra mulheres apresenta-se de diversas formas na sociedade, principalmente pelo machismo e ainda é uma realidade que está distante do fim. O ideal de masculinidade que ainda se reproduz no corpo social leva dos atos mais sutis de violência psicológica aos alarmantes números de casos de feminicídios. Hoje, há uma rede de apoio à mulher que sofre algum tipo de violência, porém falta muito para que se torne eficaz.
O perfil de Maria de Fátima Fernandes conta uma história dor de uma mulher que, assim como muitas, viveu um relacionamento abusivo. Mas que como algumas superou esse momento e hoje leva a lição de coragem e enfrentamento para o resto da vida.
Natural de Santa Cruz, um pequeno interior do Rio Grande do Norte, Maria de Fátima Fernandes, de 64 anos, conta com orgulho a sua história de superação . Mãe de quatro filhos, avó de seis netos e amiga de muitos. Católica. Amante da costura e da cozinha. Apaixonada por um cuscuz com café. Admiradora da perfeição da natureza. Esperançosa na força da família. Cultivadora do bem. Seu lema é a honestidade. Sua palavra, gratidão.
Fátima me esperava em casa, vestida de simplicidade e usando seu look favorito: uma blusa de malha e uma bermuda jeans. Na residência onde mora com uma das filhas, muitos símbolos religiosos e em sua maioria de algumas Nossas Senhoras. “Tenho muito respeito, admiração e devoção à Mãe de Jesus”.
Sentei-me em uma poltrona e ela acomodou-se no sofá. Em seguida, sua neta lhe trouxe um copo com água. Depois, disse estar “pronta” [risos]. Entre espiadas nos seus filhotes felinos que brincavam pela sala, relembrou sua juventude. Fez questão de contar que seus pais eram viúvos quando se conheceram, já tinham filhos de outros casamentos e que se casaram nas “Missões de Frei Damião”, frade muito conhecido no sertão nordestino.
Ela, a caçula dos treze irmãos, mudou-se para João Pessoa, na Paraíba, ainda muito jovem. “Eu vim ajudar minhas cunhadas. Mas foi muito bom sair do interior e vir pra praia [risos]”, disse. Por motivos de saúde, após dois anos seus pais também se mudaram para João Pessoa, onde sua mãe faleceu pouco depois. E foi nesse período que conheceu o homem que por muito tempo foi o motivo da “grande rebelião [risos]”. Fátima conta que nessa época ainda se vestia com roupas pretas, já que passavam-se meses usando roupas escuras em luto pela morte de um familiar.
Seu pai que era muito “duro” e seus irmãos não apoiavam o namoro, mas sua irmã Graciana foi sua maior cúmplice. Paquerando por cartinhas, a coisa foi ficando séria e passados três anos casou-se.
Enquanto conversávamos, sua neta chegou novamente e perguntou se queríamos pipoca. Sem demora, Fátima respondeu: “É bom!”. Ao passo que a pipoca se aprontava, ela contava sobre seu casamento, que já nos primeiros anos apontava sinais de uma relação difícil. “O ciúme começou quando eu fazia amizades em um lugar, aí ele arrumava outro canto pra gente morar”, disse. Mas só após quase vinte e cinco anos de casamento, com quatro filhos, sendo duas casadas, a falta de afeto, humilhações e as várias formas de violência – física, psicológica, moral e patrimonial – a fizeram ir, com o incentivo de familiares, à delegacia.
Com a voz um pouco trêmula, por relembrar momentos muito difíceis da vida, ela explica que foi à delegacia no dia em que seu companheiro havia quebrado os móveis e janelas da casa. “Foi a gota d’água”, afirma. Entre os bens danificados, estava um armário perfurado. Nesse momento, Fátima levantou-se e gesticulou lembrando a fala do perito. “Disseram pra mim: ‘Se sinta no lugar desse armário. Era isso que ele iria fazer com a senhora’.”. Apesar de tudo, ela, dona de um coração imenso, assegura não sentir raiva do ex-marido e reflete uma lógica de seus anos passados afirmando ter sido “uma fraqueza dele.” E sentou-se.
Entretanto, como já cantava Flávio José: a lagarta rasteja até o dia em que cria asas. Como mulher forte e decidida, ela disse que “tinha que voltar e recomeçar uma nova fase”. E na mesma casa começou, aos poucos, a retomar sua vida: “Eu me virava com o pouquinho que ele mandava pros meninos. Era o que tinha”.
Fátima se envolveu com os trabalhos da Pastoral da Criança em seu bairro e se destacou por seu empenho e liderança. Assim, surgiu sem demora a proposta para ser coordenadora de um projeto para crianças carentes na comunidade onde morava.
Os “dois anjos do outro lado do mundo”, como ela se refere às irlandesas fundadoras do projeto, disseram que o trabalho lhe renderia “um dinheirinho”; e assim, aos quarenta anos começou a trabalhar, reformou a casa, “fez muita coisa” e hoje é aposentada. “Sou muito grata por tudo que tenho.”, afirma. Por acreditar que a vida é feita de escolhas, apesar de tudo, ela diz que não se arrepende pelo que fez até hoje.
Mesmo não sendo o que ela planejava, depois de muitos anos separados, se divorciou. Mas, atualmente, seu ex-companheiro é falecido. Ainda assim, Maria de Fátima usa aliança.
Depois de pouco mais de uma hora de conversa, o tempo parecia ter passado depressa para ela, e para mim. “Já acabou?”, questiona. Na despedida, agradeceu com um demorado abraço.




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