Lutamos por Pedrinho
- Jornalismocdh

- 15 de set. de 2019
- 4 min de leitura
Por Brenda Alane
Thales Barbosa tem 23 anos e é natural de Aracaju-SE. Estudante do curso de Radialismo da Universidade Federal da Paraíba, está prestes a apresentar seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Após ser aprovado no vestibular, ele se mudou para João Pessoa, onde deu início a sua hormonioterapia e assumiu, completamente, sua identidade masculina. Ele relata sua própria história:
"Mudei para João Pessoa em 2016. Eu já sabia que era trans e falei para a minha mãe. Ela não entendeu muito bem, na verdade, até hoje ela não entende. Havia deixado isso em segundo plano - acredito que a maioria dos LGBT’s já passaram por isso, deixar algo muito importante para você em segundo plano - e continuei vivendo a minha vida.
Arrumei um emprego aqui e, algum tempo depois fui demitido. Então, sempre estava em casa e gostava de assistir vídeos para passar o tempo. Um dia resolvi assistir uma pessoa jogando no Youtube e, no jogo, ele estava procurando um celular perdido e o objetivo era achar o dono. Mas, no final, você acaba descobrindo que, na verdade, o cara do jogo era uma mulher trans, que tinha jogado o celular fora, para viver sua identidade de mulher. E ele dizia: ‘você tem que ser quem você é, você tem que se respeitar’.
Nesse mesmo dia, esse assunto voltou pra mim e eu resolvi pesquisar mais. E, por coincidência, teria o Encontro Estadual de pessoas LGBT's e resolvi ir. Eu nunca saio de casa sozinho e tinha acabado de me mudar. Cheguei até o local e tinha que assinar o nome, eu ainda não havia feito nenhuma mudança e eu perguntei se poderia colocar o nome social. No Encontro, eles me informaram sobre o espaço LGBT e eu fui até lá. Me encaminharam para o ambulatório TT (trans e travesti) do Hospital Clementino Fraga e marquei os exames com os médicos. Nisso eu conheci um cara, que é meu amigo até hoje, e ele disse que iria me adicionar ao grupo do Petris, um coletivo de homens trans. Comecei a ir para as reuniões e me destacar", relata Thales.
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Descrição para cegos: Thales está em pé, em frente à um local arborizado, e sorri para a câmera. Foto: Arquivo pessoal
"O petris foi criado por João Crispim - que teve que se ausentar e eu assumi, em 2018 - e outras pessoas. O coletivo faz referência a Pedrinho, um homem trans em situação de rua, que foi apedrejado e teve sua roupa rasgada, para mostrar que ele tinha seios e vagina. Foi um crime de transfobia. Pedrinho se reconhecia como homem trans e frequentava o espaço LGBT, conhecia o pessoal.
Decidiram criar o Petris para dar representatividade aos homens trans de João Pessoa, porque não tínhamos nenhum coletivo do tipo. Comecei a transição quando entrei no curso de radialismo, em 2016 e fui transicionando durante o curso. Ninguém me conhecia aqui. Eu não tinha barba, falava baixo porque minha voz era fina, mas, com o tempo, fui me expressando mais. Estudo no CCTA, onde tem uma grande concentração de LGBT's e foi tranquilo. Converso, tiro dúvidas, debato, coloco a perspectiva dos homens trans que, algumas vezes, as pessoas não pensam e não veem.
Minha família é aquela tradicional brasileira: os homens assistindo jogo e tomando cerveja e as mulheres cozinhando. Meu pai me disse esses dias que eu tenho muita coragem, que se fosse ele, não teria. Mas ele não sabe como é, por isso pensa assim.
Eu e minha mãe morávamos de favor em uma ONG, entrei lá ‘’fulana’’ e sai ‘’fulano’’, até hoje não sei como a mulher da ONG reagiu a isso, ela nunca disse nada. Não me atreveria a voltar para minha cidade agora, não teria coragem de encarar a família. Prefiro assim como está e também não quero ninguém em cima da minha mãe por causa disso.
Eu frequentava uma lanchonete, em Aracaju, e quando estava transicionando fui até lá, ela disse: ‘’pega um bolo de pote pra ela’’. E eu disse: ‘’Pra ele. Meu nome é Thales’’. E, desde então, todas as vezes que fui lá, ela disse: ‘’Aqui está Thales. Obrigada, Thales.’’ Sempre fazendo questão de dizer meu nome. Eu acho muito interessante, porque ela poderia ter uma reação ruim e me tratar mal, mas não fez isso.
Por ser LGBT, nós sofremos preconceito na rua, na escola, em todos os ambientes. Nos apontam o dedo, chamam nomes, nos escorraçam. O número de pessoas trans em um curso superior é bem pequeno. Quando iniciamos a hormonioterapia, é mais fácil ser ‘’passável’’, digo, ninguém te aponta nos lugares como antes. Mas é muito complicado, em entrevistas de emprego, quando ficam sabendo que é uma pessoa trans, disfarçam e depois dizem que não tem a vaga. Isso nos impede de entrar no mercado de trabalho. Também é muito difícil as pessoas respeitarem o nome social. Passamos despercebidos com os hormônios, mas, para comprar, precisamos do dinheiro e, para isso, precisamos do emprego, sabe?!
O Brasil é o país que mais mata pessoas trans e o que mais assiste pornografia trans e travesti. Mas, negam que consumem esse conteúdo e dizem que nós, trans, fazemos isso. Como nós estamos consumindo se estamos morrendo?", finaliza.


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