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Leishmaniose Visceral, como combater a doença que provém do desmatamento?

  • Foto do escritor: Jornalismocdh
    Jornalismocdh
  • 13 de ago. de 2019
  • 6 min de leitura

Atualizado: 22 de ago. de 2019


Descrição para cegos: Doutor Adriano Alves de jaleco sorrindo.

Por Carlos Henrique


A leishmaniose visceral é uma doença que pode atingir quaisquer pessoas e causa

graves problemas si não tratada imediatamente. Essa doença é transmitida por um mosquito chamado popularmente de mosquito palha, sua proliferação está ligada a matéria orgânica acumulada e ao desmatamento, que além de contribuir para um aumento da temperatura do globo faz com que o mosquito transmissor da doença saia de seu habitat para ir de encontro com os seres humanos, provocando aumento de órgãos como o baço.

Ao contrário de outras doenças, a leishmaniose visceral não é causada por um vírus ou bactéria, mas sim por um parasita. Para entendermos melhor a respeito da doença convidamos para uma entrevista o doutor em patologia Adriano Alves, 30, com o intuito de tirar as principais dúvidas sobre algo que não recebe tanto destaque na agenda do governo.

O que é leishmaniose visceral e como é transmitida?

A leishmaniose visceral é uma doença inflamatória, crônica e sistêmica. O que isso significa dizer? Significa dizer que é uma doença que vai acometer o corpo todo. É transmitida através da picada de um mosquito chamado flebotomínio, normalmente é chamado de mosquito palha. Não necessariamente o indivíduo vai desenvolver a doença em uma única picada, ele pode desenvolver em uma picada ou em picadas múltiplas.


Qual o ambiente adequado para a proliferação da doença?

O mosquito cresce em toda área que tem material orgânico, então ele cresce em tudo. Normalmente as pessoas vão se contaminar com a doença as que moram mais em regiões de floresta do que em regiões urbanas. Porque essa doença avança quanto mais desmatamento tiver; quanto mais desmatamento mais o mosquito saem de seu habitat, que são as florestas, e começa a nos atacar.


Qual a região que tem mais casos da doença?

A região Sudeste


Qual é o tempo que o parasita leva para desenvolver os primeiros sintomas no organismo do ser humano? E qual é o nome desse processo?

Chama período de encubação. Assim que uma pessoa é parasitada o microrganismo (parasita) vai até uma célula chamada macrófago, ele fica nessa célula e depois começa a se multiplicar. Potencialmente esse macrófago não vai conseguir destruir ele e então a célula se rompe. O tempo de encubação que, normalmente, a depender da resposta imunológica, pode ser de seis meses a um ano.

Se uma pessoa com HIV é infectada, ela vai desenvolver a doença mais rápida, do mesmo jeito ocorre com uma pessoa que foi transplantada, pois quando se tem transplante à pessoa tem que tomar imunossupressor. E do mesmo jeito pessoas que têm doença autoimune – todos desenvolvem a doença mais rápida porque usam medicamentos que destroem a própria resposta imunológica.


Quais são os sintomas e como é realizado o tratamento?

Na leishmaniose visceral o indivíduo vai ter hepatoesplenomegalia, ou seja, o fígado e o baço vão crescer e ficar bem grandes; ele terá edemas generalizados. O tratamento é extremamente complicado, pois faz uso de um medicamento, Antimoniato de meglumina, que é extremamente nefrotóxico – apresenta potencial risco de prejudicar os rins – e esse medicamento é sempre usado em ambiente hospitalar, ele tem que estar no hospital para fazer uso desse medicamento.

O indivíduo começa a tomar essa dose de medicamento, a qual é sistêmica, e os profissionais responsáveis pelo tratamento observam os parâmetros gerais da doença e a partir disso estabelecem as doses. A leishmaniose é uma doença que não tem cura. O indivíduo vai ter uma cura chamada de cura clínica, mas ele não tem a cura do parasita. O parasita vai permanecer nele o resto da vida, não necessariamente ele vai manifestar a doença.


Como pode ser feito a prevenção? Seria como a da dengue que consiste em combater a proliferação do mosquito?

Seria como a da dengue combater o mosquito. Mas diferentemente do mosquito da dengue, aedes aegypti, não é muito fácil. Porque normalmente o aedes está relacionado à água parada, já o flebotomínio não, onde tiver matéria orgânica ele cresce então ele cresce em todo lugar que há matéria orgânica, assim não é fácil combater o vetor. É mais fácil usar medidas preventivas, por exemplo, se estar em uma área endêmica usar repelente, quando for dormir colocar um mosquiteiro e se tiver cachorro usar coleiras específicas, há uma chamada Scalibor que repele o flebotomínio. Então, normalmente, as medidas preventivas são essas porque combater o vetor não é muito eficiente.


A leishmaniose é uma doença rara ou pode ser considerada comum?

Comum. Infelizmente. Por exemplo, no HU ( hospital universitário) eu dou o diagnóstico de todos os casos de leishmaniose, tem semana que nós temos de cinco a sete pessoas com a doença. Então, uma doença com alta incidência. Santa Rita, Sapé, Rio Tinto e Mamanguape são as que mais têm casos.


Em sua opinião, os profissionais da área de saúde estão capacitados a fazer um diagnóstico preciso de forma a contribuir para uma melhor recuperação do paciente?

Na leishmaniose temos que fazer o diagnóstico anatomopatológico, ou seja, se você tem essa doença o médico vai ter que tirar um pedacinho de você e mandar para analisar para vê se há presença do parasita, muitas vezes não conseguimos fazer isso porque essa metodologia é extremamente cara e chama-se imunoistoquímica – é colocado um anticorpo contra esse parasita para conseguir mostrar isso no tecido.

Não é tão simples, quando se tem leishmaniose visceral para fazer esse diagnóstico o médico vai ter que fazer uma pulsão da medula, colocar no meio e fazer com que esse microrganismo cresça se não, não consegue dá esse diagnóstico. Muitas vezes eles são capacitados para dá um diagnóstico chamado diagnóstico clínico; o médico olha e vê se você tem tudo para fechar a doença. Esse é o recurso que ele tem isso não quer dizer que não seja capacitado para dá outros tipos de diagnóstico, mas depende de recurso.


É notório que o sistema de saúde pública brasileiro não tem um dos melhores atendimentos, visto que muitas pessoas ficam em filas enormes a espera de atendimento médico. No caso da leishmaniose visceral, uma demora no diagnóstico e no tratamento pode agravar a doença?

Pode agravar a doença com certeza. Porque nessa doença você vai começa a ter os órgãos literalmente comidos por esse parasita, então, quanto mais tempo você fica sem o diagnóstico mais tempo fica sem o tratamento e mais o parasita consegue destruir você.


Quais seriam algumas medidas que o governo poderia programar ou melhorar para garantir um melhor atendimento às pessoas no tratamento da leishmaniose?

Primeiro fazer com que as pessoas entendam o que é a doença e colocar na cabeça delas em forma de educação à saúde que essa doença não tem cura. O individuo que tem leishmaniose não necessariamente irá morrer de leishmaniose, mas vai morrer com a leishmaniose. Então a primeira coisa é fazer educação à saúde para que as pessoas percebam as lesões e a partir daí elas consigam entrar em um sistema de saúde funcional. No HU ninguém entra com suspeita de leishmaniose e sai com suspeita, quem entrar sai com o diagnóstico, sendo de leishmaniose ou de qualquer outra doença.

Segundo, fazer aprimoramentos no próprio corpo de saúde para que as pessoas nunca se esqueçam, por exemplo, dos critérios de diagnóstico para essa doença e mais do que isso, que elas nunca esqueçam os caminhos que podem seguir as medidas preventivas e as medidas de diagnóstico.


O governo faz campanhas de prevenção de algumas doenças, a aids é um exemplo, todavia há outras que não recebem tanto destaque e acabam ficando de lado. A leishmaniose se enquadraria nessa que está de lado?

Sim, se enquadraria nessa que está de lado, até porque a leishmaniose é uma doença parasitária; doença parasitária é doença de país pobre. Se é doença de país pobre a indústria farmacêutica que é a que mais cresce no mundo não investe nisso e os médicos são guiados por ela. Então o que eles prescrevem? Muitas vezes aquilo que ele vai ter uma bonificação associada e leishmaniose ele não vai ter nada. Diferentemente de hipertensão. Quantos anti-hipertensivos hoje a gente tem? Milhares; do mesmo jeito hipoglicemiantes.

Há vários outros medicamentos que a indústria farmacêutica cai encima, faz o maior marketing e isso sensibiliza os profissionais que os prescrevem. Diferentemente de leishmaniose, que não é apenas doença de país subdesenvolvido, mas doença que pega pobre, dificilmente vai ter uma pessoa branca/ rica com leishmaniose, normalmente vai ser uma doença da pessoa negra e pobre.

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1 comentário


gigutierre
22 de ago. de 2019

Muito informativo! Obrigada

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