“A prevenção é o melhor remédio”
- Jornalismocdh

- 20 de set. de 2019
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📷 Descrição para cegos: Duas caixas de remédio lado a lado, e na frente delas mais caixas de remédio estão empilhadas.
Por Heloisa Araujo, Izadora Rodrigues, Nalim Tavares e Sarah Macedo
A automedicação — caracterizada pela tomada de remédios sem o acompanhamento ou orientação de um médico — é uma prática cada vez mais comum entre os brasileiros. Diversas são as consequências do uso indiscriminado de medicamentos: antitérmicos podem mascarar infecções, anti-inflamatórios podem sobrecarregar os rins, antiácidos podem esconder úlceras e gastrites e xaropes podem encobrir pneumonias. De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entre 40% e 60% das doenças infecciosas já são resistentes a medicamentos e pelo menos 700 mil pessoas morrem anualmente devido à resiliência destas.
No ano de 2016, uma pesquisa realizada pelo Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ) pôs o país como recordista mundial em casos de automedicação, com 72% de brasileiros praticantes. No ano de 2019, uma pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF), através do Instituto Datafolha, verificou que a porcentagem subiu para 77%. Além disso, 47% repete o processo mais de uma vez por mês e 25% o faz diária ou semanalmente. O Conselho identificou que entre os medicamentos mais utilizados pelos brasileiros no período estão analgésicos e antitérmicos (50%), antibióticos (42%) e relaxantes musculares (24%).
Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado no dia 29 de abril desse ano, prevê que ingerir medicação sem a prescrição médica pode matar até 10 milhões de pessoas por ano até 2050, em todo o mundo. A pesquisa estima que, até 2030, a resistência antimicrobiana leve cerca de 24 milhões de pessoas à extrema pobreza.
Quanto às causas, acredita-se que a automedicação esteja relacionada a um aspecto cultural que começou com chás e receitas para remédios caseiros. Segundo a pesquisa realizada pelo CFF, as menções positivas aos efeitos dos medicamentos incluem ‘melhora’, ‘alívio’ e ‘saúde’ enquanto que as menções negativas remetem ao motivo do uso, a doença, e não o produto ingerido.
Entretanto, existem outros fatores que contribuem para a prática cada vez mais em evidência como se pode perceber na fala da estudante Renata Pereira: “já me automediquei porque tinha compromissos e não podia perdê-los. Quando você vai a um posto de saúde, por exemplo, além da precariedade do sistema e muitas vezes do atendimento, ainda tem a questão da falta de medicamentos na unidade. Às vezes é algo que você já teve ou uma amiga teve. Você sabe o que é e qual medicamento o médico vai prescrever, então, não há razão pra perder um dia de trabalho, já que muitas vezes há uma demora pra poder fazer a consulta. Já teve episódio em que o medicamento estava em falta na unidade, mas ao alcance das minhas mãos na caixinha de remédios de casa. Acabei dando viagem perdida”, relata.
Existem alguns medicamentos que não exigem nenhum tipo de prescrição médica e podem ser comercializados livremente. Esses são os remédios não tarjados, pouco tóxicos, e normalmente tratam de resfriados, azias e dores de cabeça. Quando se trata de remédios tarjados, a prescrição é indispensável visto que esse tipo de medicamento pode vir a acarretar em efeitos colaterais graves. Os remédios de tarja preta e vermelha são os mais perigosos quanto a intoxicação. Além da automedicação, há também o uso inadequado de medicamentos, como doses em excesso e horários de ingestão desregulados. O problema principal é que a automedicação pode ajudar a esconder determinadas doenças, dificultando o diagnóstico e agravando o problema.
“Eu tava tendo episódios recorrentes de dor de cabeça e me automedicava com frequência. A dor vinha, eu tomava o remédio e aliviava, mas a dor voltava de novo. Dias depois tive que ir ao médico, porque tava tendo tonturas e passando muito mal. Descobri que era labirintite”, relata a autônoma Maria Silva. Diante das problemáticas que envolvem a automedicação, entram em pauta os métodos de medicina alternativa, que buscam promover a prevenção das doenças através de técnicas alternativas de cuidados.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), medicina alternativa é definida como “um conjunto amplo de práticas de atenção de saúde que fazem parte da própria tradição do país e estão integradas no sistema sanitário principal”. Estariam aí incluídas acupuntura, quiropraxia, hipnose, complementos para a medicina “tradicional”.
Existem cinco variações reconhecidas de medicina alternativa: sistemas médicos alternativos integrais (medicina tradicional chinesa, homeopatia e naturopatia, por exemplo), técnicas de corpo e mente (baseadas na teoria de que os fatores emocionais e mentais podem auxiliar na regulamentação da saúde física, inclui, por exemplo, hipnoterapia, meditação e imagística direcionada), tratamentos com base biológica (práticas que utilizam substâncias que modificam o estado de saúde dos usuários, como fitoterapia, terapia com dieta, quelação e terapias ortomoleculares), métodos manipulativos corporais (massoterapia, quiropraxia, reeducação postural e reflexologia) e medicina energética (manipulam os biocampos ou energias sutis que existem dentro e ao redor do corpo, como acupuntura, magnetos e toque terapêutico).
Entre todas as alternativas há o Reiki, uma técnica japonesa que faz uso da troca de energia para revitalizar e harmonizar o corpo, usando as mãos como fonte de energia. A técnica faz parte do conjunto de terapias bioenergéticas, exercícios de respiração para ativar o fluxo de energia de um corpo a fim de proporcionar bem-estar a mente e ao organismo.
Diversos são os objetivos do Reiki, entre eles a redução do estresse e da ansiedade, fortalecimento do sistema imune, aumento da criatividade, redução das toxinas no organismo e diminuição dos sintomas de depressão e síndrome do pânico. Assim, devido a gama de benefícios que proporciona, o Reiki pode ser utilizado como terapia complementar para problemas de saúde como ansiedade e depressão, dor crônica e insônia. O principal objetivo da prática não se trata apenas de curar males, mas também de viver bem.
Segundo a farmacêutica Antonilêni Medeiros, formada pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com Habilitação em Farmácia Industrial e Mestre na área de Tecnologia de Medicamentos pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), todo tratamento químico (medicação) é válido, desde que bem indicado. “O que acontece é que as pessoas têm se apegado cada vez mais a medicamentos como se eles fossem pílulas mágicas capazes de tirá-los de qualquer má condição quando na verdade, muitas vezes, a prevenção é o melhor remédio. Apesar de farmacêutica, uma pessoa extremamente encantada pelos medicamentos, eu sempre procuro servir a vertente de que menos medicamentos é melhor saúde e qualidade de vida. O quanto você puder minimizar o uso de química, melhor será para você”, declara.
“Não posso fechar os olhos e dizer ‘não use medicamento, é ruim, vai te fazer mal’, não!”, diz Antonilêni, docente há doze anos e também formada em acupuntura. “O objetivo do medicamento é tratar e restabelecer a saúde, porém as pessoas acabam fazendo ele de muleta. E muleta é algo necessário, mas apenas temporariamente. Ninguém quer ficar de muleta o tempo todo. Então prevenção continua sendo o melhor caminho”, destaca.
Para Antonilêni, terapias alternativas são tão importantes quanto às terapias convencionais, principalmente para a parcela da população que tem menos acesso. “Medicamento é muito caro, saúde é muito cara, tratar e reestabelecer saúde é caro. É muito mais barato prevenir. Existem diversas formas de medicina alternativa ou práticas integrativas e todas elas têm o seu diferencial. Falando especificamente do Reiki, existe toda uma técnica, uma forma de reestabelecer o campo energético de uma pessoa através dos chacras e por isso se classifica como uma forma holística de tratar. Não se olha para o indivíduo apenas como algo orgânico, mas também como energético”, ressalta.
Mesmo sendo defensora da medicina holística, Antonilêni acredita que estes tratamentos alternativos são caminhos que podem ser atrelados a parte química. “Se a gente for pensar em saúde, saúde é muito mais do que não estar doente e não ter nenhuma ferida no corpo. Dentro das práticas alternativas, a gente começa a perceber que o adoecer começa na alma, na mente. O emocional está muito relacionado à nossa saúde. Se você é alguém emocionalmente equilibrado ou mesmo se reconhece que não e procura acolher seus sentimentos e buscar o equilíbrio, já é um grande passo para a melhoria. É o pontapé para se curar”, relata.
Adepta a arteterapia, Antonilêni tem aulas de desenho ao longo da semana no ateliê Setting Sunshine, em João Pessoa. Sua professora, a arteterapeuta Fabiane Balbino, afirma que nem todo mundo está apto a trabalhar na área de Arteterapia, pois existem questões internas ao profissional que não podem se misturar com as do cliente. “Durante o percurso você vai passar por um tratamento arteterapêutico e também por atendimento psicológico. Porque a mente da gente é um universo e você tem que saber a responsabilidade que está assumindo ao trabalhar com sintomas que vão mexer com o pensamento, com sentimentos, com a estrutura do paciente”, declara.
Para os seus próprios alunos, Antonilêni costuma dizer que, ainda que os remédios curem, na realidade o potencial de cura pertence ao corpo e não ao medicamento e que este é um caminho para reestabelecer a normalidade. “Pensando no medicamento como uma molécula química, uma substância administrada para aquele corpo que precisa reestabelecer uma homeostase, um equilíbrio, se a molécula enquanto substância dentro de uma fórmula pode fazer isso, por que não a imposição das mãos, a meditação, uma arteterapia, uma terapia através da fala como é o caso da psicologia, por que isso também não consegue?”, indaga.
Quando questionada sobre a eficácia dos programas de prevenção adotados pelo SUS, ela ressalta a humanização do atendimento, que atinge milhares de pessoas diariamente “Volto a questão da empatia, do olhar pro outro, do ressignificar as dores, os processos, as situações, porque eu sempre posso fazer algo, nem que seja ouvir. Por vezes aquela pessoa que ali na sua frente está implorando pra ser ouvida e a gente não ouve. Ouvir não vai resolver o problema, mas vai ajudar, aliviar, amenizar temporariamente e talvez até lançar uma luz, uma nova perspectiva que ressignifique o problema. Ainda tempos muito para caminhar, mas já estivemos mas longe, assim penso eu”, finaliza.

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