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Gordofobia e saúde mental, até onde o preconceito pode chegar?

  • Foto do escritor: Jornalismocdh
    Jornalismocdh
  • 31 de jul. de 2019
  • 3 min de leitura

Atualizado: 23 de ago. de 2019


Descrição para cegos: Silhueta de uma mulher gorda. Foto: Reprodução

Maria das Dores da Silva Soares


Em 2018 o caso Dielly dos Santos ascendeu o debate sobre a gordofobia e a pressão estética sofrida por adolescentes na internet. A estudante de 16 anos cometeu suicídio após diversos ataques gordofóbicos em suas redes sociais. Mesmo com o “bum” das ideias Body Positive — movimento que consiste na não aceitação dos padrões de beleza e na valorização de todos os corpos — e de autoaceitação que são disseminadas principalmente através da internet, a marginalização das mulheres gordas ainda é uma triste realidade.

Mesmo após sua morte, as redes sociais de Dielly dos Santos permaneceram bombardeadas de discursos de ódio ao seu corpo e à sua aparência. Em contrapartida a digital influencer Nara Almeida, que teve sua luta contra o câncer de estômago glamourizada e romantizada pelo público que a acompanhava, era exalta pelo corpo magro que tinha mesmo a magreza sendo devido a sua doença. O contraste desses dois casos mostra como a empatia seletiva ocorre.

Muitas pessoas sofrem com os padrões de beleza impostos. Bulimia, anorexia e automutilação são transtornos que podem surgir nas pessoas que tentam alcançar o padrão “ideal”. A gordofobia - uma aversão a pessoas consideradas gordas e que estariam fora do padrão de beleza perpetuado pela mídia - é um fator que pode gerar tais doenças, além de contribuir para a exclusão no meio familiar e escolar.

Flávia, 21 anos, estudante, desde a sua infância sofre com a gordofobia. Ela evitava brincar com outras crianças porque não gostava dos apelidos que a chamavam, dentre esses destaca: “rolha de poço” e “bolinha”. Na época via seus colegas começando a ter envolvimentos amorosos enquanto ela continuava sem ninguém, acreditando que seu peso era um impeditivo para ter um relacionamento com quem gostava:foi muito difícil porque ninguém se interessava por mim, eu era sempre a amiga gorda da menina popular, foi um fardo imenso que tive que aturar”, conta.

A estudante começou a ajudar um colega com a matéria de química e começou a ter sentimentos românticos por ele, mas a conclusão desse episódio não foi dos melhores: “ele era gentil comigo e eu comecei a gostar dele e ele realmente aparentava gostar de mim, eu decidi me declarar através de um post-it nas anotações da matéria, no dia seguinte a escola toda estava repleta de fotos do post-it, alguns garotos começaram a me xingar e dizer coisas horríveis, então o colega chegou perto de mim na frente de todos e falou ‘você acha mesmo que eu vou querer algo com você? Você é gorda, ninguém te quer, a vida não é um filme da Disney’; foram palavras que ficaram ecoando na minha mente por muitos anos, entrei em pânico na hora, comecei a chorar”, relata.

Depois do ocorrido, Flávia não conseguiu mais ir para essa escola, convenceu os pais a mudar de instituição e assim começou a construir novas amizades. Fez vestibular, passou e deu início a faculdade. Porém o impasse com o seu peso não ficou de lado, quando foi comprar seu jaleco e o provou, viu que os botões não fechavam. Esse foi um acontecimento fundamental para Flávia fazer uma cirurgia bariátrica: “eu queria poder me olhar no espelho e me enxergar, sabe? Eu estava bem, mas precisava de mais, aquilo que eu via não era eu, então eu decidi fazer a bariátrica.

E definir isso foi bastante complicado, meus pais não aceitavam que eu precisava da cirurgia para me sentir bem, isso me fez se sentir pior e regredir bastante tudo que consegui no tratamento psicológico, mas graças à terapia familiar eles acabaram cedendo e aceitando minha decisão e me apoiaram”, declara a estudante.

Ninguém deveria passar por tal processo doloroso a ponto de se desgastar física e mentalmente, mas nem sempre as pessoas querem ver um indivíduo como ele realmente é, essa forma de pensar é estimulada por uma cultura que não preserva a integridade da pessoa, mas que as fazem sofrer para se adequar a um modelo “perfeito”.

Flávia finaliza: “hoje eu acredito que se a sociedade não impusesse tantos padrões minha vida tinha sido mais fácil, eu teria me aceitado, pois todos os meus traumas e minhas frustrações foram provenientes da gordofobia, dessa necessidade de alcançar e replicar um padrão que não condizia com meu biotipo, com minha forma física; isso afetou meu psicológico de uma forma muito profunda que eu ainda estou aprendendo a lidar mesmo depois de muito tempo”.


*o nome usado nesta reportagem é fictício para que haja uma preservação da identidade da entrevistada.

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