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Fuerza para dar vueltas

  • Foto do escritor: Jornalismocdh
    Jornalismocdh
  • 25 de ago. de 2019
  • 4 min de leitura

Descrição para cegos: "Las Abuelas de Praza de Mayo" num protesto, segurando um cartaz que diz "1977-10 años de lucha-1987; Buscamos dos generaciones" e mostra muitas fotos de desaparecidos na ditadura militar. Fonte: REPRODUÇÃO/SITE ‘ABUELAS’.

Ser mãe É desdobrar fibra por fibra

Os corações dos filhos

(Trecho da música

Mamãe Coragem’,

de Torquato Neto)

Por Maria Catharina Belo


A História mais recente da Argentina contempla numerosos e devastadores marcos de militarização. O golpe de Estado que ocorreu em 1976, colocado pelos militares como a única solução para a crise generalizada em que se encontrava o país, teve como desdobramento a ditadura mais homicida da América Latina, ainda que haja um debate delicado sobre o número de vítimas. Escondeu sob um discurso patriota, de reestabelecimento da economia, sustentando-se através dos meios de comunicação que veiculavam notícias sensacionalistas sobre lutas que tocavam o espírito argentino, como a guerra das Malvinas, a motivação ideológica de contenção da onda vermelha, adotando clandestinamente punições cruéis a “criminosos políticos”.

As sequelas da ditadura militar, que data de 1976 ao início do reestabelecimento do Estado de Direito com a eleição de Raúl Alfonsín em 1983, são revisitadas constantemente. Opositores à ditadura eram levados para um dos mais de 300 Centros Clandestinos de Detenção (CCD) que estavam espalhados por todo o país em dependências das forças de segurança. Sofriam torturas, execuções sumárias e seus filhos eram sequestrados. O “voo da morte” era uma prática comum: as pessoas, por vezes ainda com vida, eram arremessadas ao mar. A ordem era matar e desaparecer com o corpo.

A apropriação ilegal dos filhos de pais presos pela ditadura causou impactos a uma geração inteira. Eram as crianças dos “subversivos”. Alguns foram com suas mães em busca de alguém e não voltaram, outros nasceram em hospitais militares ou nos CDDs e foram adotados ilegalmente, depois de vendidos ou abandonados, por famílias que, na maioria das vezes, possuíam ligação com o regime.

“Las Abuelas de Plaza de Mayo”, desde 22 de outubro de 1977, marcham pelos netos sequestrados na ditadura. O grupo cresceu e se propagou por meio de reinvindicações, pedidos pela colaboração e mobilização da sociedade e das investigações individuais. São elas que lutam initerruptamente pela reconstituição das identidades de aproximadamente 500 crianças, hoje adultas. É inegável o poder de transformação e de atribuição de memória ao povo argentino que têm e este ultrapassa qualquer tentativa de deslegitimar suas lutas. Deve significar alguma coisa as mães serem grande maioria em movimentos contra a violência.

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Em 2013 foi divulgada pelo Ministério da Defesa argentino a notícia de que haviam sido encontrados arquivos secretos relacionados à ditadura militar. As três “listas negras” estavam entre esses documentos e consistiam numa relação de “perigosos ao regime”. Artistas, jornalistas e pessoas influentes. A primeira lista encontrada no edifício Condor, data de abril de 1979 e além da instrução de incinerar os dados, traz os nomes da atriz Norma Aleandro e do ator Hecitor Alterio, categorizados com o grau de periculosidade F4 (considerado “perigo máximo, por conter histórico ideológico marxista”).

Norma e Hecitor protagonizam “La Historia Oficial”. Escrito e dirigido por Luis Puenzo, o filme se passa em 1983, no início de uma busca gradativa e atribulada por um ideal democrático. “A História é a memória dos povos”, é uma das primeiras frases que Alicia (Norma Aleandro), professora de História da Argentina, fala em sala de aula. A importância da identidade, das verdades, vai sendo colocada a partir das situações de vida de uma mulher que não podia engravidar, tendo de enfrentar a negação de seu ego ao questionar a origem de sua filha adotada. Nesse processo suas crenças baseadas nos livros oficiais vão sendo desconstruídas e começa a se dar conta do funcionamento do regime militar e suas sequelas. Chela Ruiz interpreta uma abuela, que conta histórias de sua filha desaparecida grávida como se nesses momentos conservasse suas memórias, é incansável no seu caminhar. As quatro fotos como a matéria que restou da casa queimada para mostrar a Alicia como Gaby é parecida com sua filha. Constroi a partir disso uma linha cronológica da vida.

“Buscamos dos generaciones”

Javier Matías Darroux Mijalchuk foi o 130° neto recuperado pelas abuelas. Tinha quatro meses quando desapareceu. Elena Mijalchuk, sua mãe, grávida de dois meses, o levou junto consigo a uma reunião, dia 26 de dezembro de 1976, para buscar informações sobre seu marido que fora sequestrado alguns dias antes. Javier foi encontrado na rua, próximo à Escuela de Mecanica de La Armada (ESMA), dentro de tortura e extermínio, por uma mulher que o adotou legalmente. Ele desconfiava que poderia ser filho de desaparecidos políticos, mas só conseguiu restituir sua identidade quando uma análise genética confirmou seu parentesco. Agora procura reconstruir a história de seus pais e encontrar seu irmão. Um processo de restauração e respeito a suas verdades. “É uma homenagem a meus pais”.

Insistir na memória é necessário para que as novas gerações possam garantir seu direito à identidade. E cantar de coração, junto à Mercedes Sosa, Gracias a la Vida.


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