Depressão pós-parto (DDP)
- Jornalismocdh

- 1 de set. de 2019
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Descrição para Cegos: A imagem apresenta uma mulher que supostamente é tida como sendo mãe do bebê de aproximadamente 4 meses, que está ao seu lado. Ambos estão deitados, no que se parece um tapete. A mãe está com as mãos sobre o rosto, em um indicativo de choro, e o bebê, chora ao seu lado. Fonte: intertvwe.com.br
Por Maria da Graça Mellody
Quando a alegria de dar a luz a um filho torna-se uma constante e persistente tristeza, acrescida de outros sintomas como: desânimo, alterações de humor, fadiga, pensamentos negativos e crises de choro regulares, além da diminuição da confiança em desempenhar tarefas maternais. Esses sinais podem ser um indicativo de que a mãe esteja sofrendo de Depressão Pós-Parto (DDP). Com isso, a busca por ajuda e o apoio dos parceiros e da família, torna-se fundamental para o processo de cura dessa mulher.
Liderado pela pesquisadora Mariza Theme e desenvolvida em 2016, uma pesquisa da Escola Nacional de Saúde Pública, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), entrevistou 23.896 mulheres entre 6 e 18 meses após o parto, e foi comprovado que uma em cada quatro brasileiras apresenta sintomas de depressão pós-parto. Comprovação esta que traz à tona a discussão da importância de um acompanhamento da saúde mental da mulher durante o período da gestação.
A crônica abaixo aborda tal tema, com a proposta de enviesa-lo através das lentes de uma mãe que sofre de tal problema.
"De umbigo à umbiguinho, o elo e o fim"
O vento forte lá fora, balança galhos da árvore plantada por meus pais, quando ainda estavam vivos, e chega leve ao quarto da criança que depois de uma noite de prantos, por algo que até agora desconheço, dorme serena, diferentemente de mim que, apreensiva, a observo. O vento balança com calma o caça-sonhos e mais parece me ensinar com paciência como embalar direito uma criança no colo.
O quarto, cenário de uma noite longa e de uma - como as pessoas intitulam - "mãe solo", conta por si mesmo, através do lixeiro, quase já preenchido por fraldas, ou ainda dos brinquedos espalhados pela cômoda, como foi a noite. Sento na cadeira que a amamento, e só de pensar na próxima vez que farei isto, sinto arrepios. Meus braços doem e, mediante aquele cenário de bagunça, me vejo em uma sobrecarga de problemas os quais preciso resolver. Sempre fui muito crítica comigo mesma, e sempre achei que nunca soube fazer nada direito, e definitivamente, cheguei à conclusão de que não sou uma das mães felizes das revistas e tampouco as da TV.
O elo que deveria ter com essa criança, que observo dormir, parece ter sido cortado juntamente com seu cordão umbilical, mas a sua dependência à mim de alguma forma ainda nos conecta. Me sinto como sendo a Cuca de sua canção de ninar e sinto receio com isto, não vou mentir. Mas, estou triste, cansada e as olheiras em meu rosto não foram as únicas coisas que mudaram em mim.
"Você deveria estar feliz", me dizem. "É o momento mais mágico da vida de uma mulher!", eles afirmam, e o julgamento sem nem saber o que sinto, me silencia, já que o menosprezo e o descrédito falam mais alto, passo a passo com a ignorância. E assim a sensação do direito de sentir algo se esvai, junto com a liberdade que pareço ter deixado na maternidade. Minhas limitações são esnobadas e o único empoderamento e elogio, que pareço receber é o de ser uma boa "vaca leiteira". Todos os dias coloco a máscara para camuflar a falta de amor pela minha, digo, por essa criança.
Ela se mexe, interrompendo meus pensamentos, e por alguns segundos prendo a respiração, numa tentativa que me parece bizarra, de evitar que o meu inspirar a acorde. Passado o suspense, continuo no seu quarto, desbloqueio a tela do celular, que me anuncia inúmeras mensagens, provavelmente já expiradas e vou à internet, procurando alguém que me entenda e que se sinta só e negligenciada tanto quanto eu.
As forças parecem ter sido todas gastas na hora do parto. Preciso de ajuda, mas preciso ainda mais de coragem para assumir isso. Preciso de um banho, também. O vento balança as cortinas e penso ser estranho o fato das pessoas que estavam no chá de revelação terem tomado mesmo um chá de sumiço.
Enquanto olho essa criança, lembro dos nove meses que ela passou presa a mim e me questiono se em algum momento ela sentiu-se presa, tanto quanto me sinto agora. Ela se mexe e, dessa vez, prender minha respiração parece não funcionar. Seus olhos pequenos e castanhos me fitam e parecem me dizer que o que ela sentiu mesmo foi aconchego e prazer.
Tentando fugir de seu olhar, que diferente de todos os que venho recebendo, é o único que parece não me julgar, olho para o relógio de nuvem, pendurado na parede e vejo que 30 minutos se passaram desde o momento que ela dormiu. Desejo então que assim como o tempo, essa sensação ruim passe, que a ajuda chegue e que o tempo o qual eu consiga chamar essa criança de filho exista. Mesmo agora renegando, pego-o no colo e olho-o novamente.
Seus olhos continuam me fitando e parecem buscar um elo que nos conecte não por nove meses apenas, mas por toda uma vida. Seus olhos me dizem que seu nascer revela o meu nascer para ser sua mãe, e eles não me pedem perfeição como pré-requisito. Seus olhos me dizem que ela aprenderá comigo, e eu, com ela e que o ato de gerar não se findou após seu nascimento, este continua. Só que dessa vez, gero dentro de mim não uma vida, mas o amor por ela.




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