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Construindo Liberdade

  • Foto do escritor: Jornalismocdh
    Jornalismocdh
  • 27 de ago. de 2019
  • 5 min de leitura

Atualizado: 27 de ago. de 2019

Os projetos de ressocialização realizados pela Igreja Cidade Viva na Paraíba.

Descrição para cegos: Predio da Escola Cidade Viva, com três andares e algumas janelas escuras na lateral. Grades contornam o prédio e ao redor carros estão estacionados. Ao fundo existem prédios maiores, a escola é localizada no bairro do Bessa.


Por: Tulyo Freire Lopes


Pastor João Moisés é coordenador do núcleo da Fundação Cidade Viva que atua na Paraíba desde abrigos para crianças até penitenciárias de segurança média e máxima. A fundação trabalha de forma voluntários dentro de penitenciárias com o projeto de ressocialização a partir do trabalho. A iniciativa de acolher e integrar pessoas marginalizadas junto à sociedade permitiu a Fundação desenvolver dentro dos presídios fábricas de bonecas, confecção de vassouras e padarias que distribuem pães para consumo nas penitenciárias.

. “Não temos todas as habilidades e capacidades, mas nós somos os agentes para identificar onde podemos encontrar a habilidade que nos falta”. Através de parcerias e trabalhos com voluntários o Pastor Moisés transforma a sociedade e constrói a liberdade de diversos paraibanos.


P – Como se deu o início dos trabalhos envolvendo grupos marginalizados?

R- Iniciamos em 2004 trabalhando com dependentes químicos, através do grito de uma mãe desesperada porque o filho estava roubando a própria casa, naquele momento nós não tínhamos na cidade nem no estado muitas alternativas para o acompanhamento do dependente e nem da família. Mas como iriamos auxilia-los?

A resposta foi criar uma casa de reabilitação, depois dela veio à ideia da fundação. E começamos a perceber que a sociedade tinha outras demandas numerosas, e a igreja também poderia fazer parte de um contexto de auxílio, não com objeto de converter o sujeito a nossa religião mas com a finalidade de transformar as pessoas de forma positiva.📷

A Cidade Viva é muito organizada no seu escopo de governança, nós criamos cinco núcleos, dentre eles o núcleo de cuidado comunitário. Junto ao Pastor Saulo, estamos envolvidos nos trabalhos em presídios, nos hospitais, abrigos, nas ruas e não só em João Pessoas como em outras cidades.


P- Para participar dos projetos é necessário ser membro da igreja?

R- De jeito nenhum, hoje a Cidade Viva é utilidade pública municipal, estadual e federal. É uma instituição do povo, como por exemplo os trabalhos que fazemos nos presídios. Os beneficiados com os nossos trabalhos, não precisam comungar da mesma fé.

Nós construímos em 2015 uma sala de aula dentro da penitenciaria máxima porque começamos a perceber que os presidiários queriam estudar, só que não tinham um ambiente para isso, então criamos dentro da máxima (Penitenciária de Segurança Máxima Criminalista Geraldo Beltrão) uma sala com estrutura para beneficiar o aprendizado e hoje essa sala de aula ainda funciona e naquele mesmo ano, dois detentos passaram no ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Construímos também o castelo de bonecas na penitenciária feminina Julia Maranhão para fabricação de bonecas, entregamos nesse ano a fábrica de vassouras que fica na média (Penitenciária de Segurança Média Juiz Hitler Cantalice), estamos construindo um castelo de bonecas em Campina Grande-PB, assim beneficiando toda a sociedade.


P- O financiamento para os projetos da Cidade Viva provém do Estado ou da Fundação?

R- A maioria das nossas ações é de custo da nossa instituição, e todo o recurso da fundação também sai da nossa igreja. Nas discussões do iluminismo a igreja deveria ser separada do Estado, mas a igreja faz parte do Estado pelos seus serviços e até mesmo nas prestações de caridade. Existem alguns recursos que provém de parceria com a VEP (Vara de Execuções Penais. Nossa parte é fazer o levantamento necessário para a estrutura e em seguida submetemos o projeto a VEP que repassará os recursos e nós prestaremos conta ao final da obra.


P- A fundação Cidade Viva não recebe algum retorno financeiro dos projetos em que participa?

R - Não, a nossa participação é a formulação dos projetos, ressocialização, construção das estruturas e execução do projeto através dos nossos voluntários. Com tudo estabelecido e funcionado, nós iniciamos um acompanhamento.

Em 2016 reformamos a padaria da penitenciária média que fabrica 12 mil pães por dia, alimentando o sistema penitenciário de João Pessoa e da Grande João Pessoa. Quando verificamos a padaria, os pães tinham péssima qualidade, os custos eram altíssimos e os equipamentos estavam todos deteriorados, elaboramos um projeto com custo de 25 mil reais para revitalizar os equipamentos e estruturas. Convidamos um profissional de São Paulo para ministrar cursos de manuseio desses equipamentos da padaria e de fabricação de pães (padeiro), e desse investimento obtivemos como resultados: a melhoria da qualidade do pão, redução de custo (pois não havia tanto desperdício como anteriormente) e profissionalização dos detentos que posteriormente poderão exercer essas funções em liberdade.


P- A instituição trabalha com outros parceiros para a realização dos projetos?

Pastor Moisés - Nós também criamos uma parceria com a ENLUR (Empresa Municipal de Limpeza Urbana), empresa essa que oferece mão de obra adequada por fabricar vassouras para o serviço prestado à sociedade. Não temos todas as habilidades e capacidades, mas nós somos os agentes para identificar onde podemos encontrar a habilidade que nos falta e assim formar uma parceria.


P- Como os detentos são remunerados pelo trabalho exercido nas penitenciarias? Acontece uma diminuição na pena, as famílias recebem ou não há uma remuneração?

R- Tomando como exemplo o castelo de bonecas em que a cada quatro dias trabalhados elas conseguem uma media de um dia e meio de redução da pena. Do recurso adquirido pela venda das bonecas é retirado o valor dos materiais para confecção, parte do dinheiro vai para a família e outra parte vai para um fundo que quando concluída a pena a cidadã recebera parte desse fundo. Porém não é da nossa responsabilidade estabelecer essa remuneração, cabe a diretoria da pentearia essa administração.


P- A principal forma de ressocialização abordada na Cidade Viva é pela capacitação profissional?

R- É uma das. Temos a necessidade de olhar para o sujeito de forma holística, eu preciso entender que esse sujeito é emoção; ele tem raiva, têm dores, ele tem problemas familiares, por isso eu tenho um ministério chamado esperança viva que está todos os finais de semanas dentro dos presídios com odontomóvel, com médico, com advogados revendo processos e oferecemos a oportunidade de uma ressocialização com a família. Esse núcleo de trabalho comunitário eu tenho 16 ministérios e alguns deles se ramificam em mais alguns, a exemplo daqueles que trabalham nos abrigos como o projeto Criança Viva, psicólogos e saúde mental. Trabalhamos com adoção, com apadrinhamento, também temos o projeto Caminhar, auxiliando o jovem quando completa 18 anos e deve sair do abrigo para menores promovendo a capacitação, no entanto nós não focamos todo trabalho somente com esse sujeito. Precisamos compreendê-lo como ser holístico, é preciso cuidar das emoções dele, inseri-lo no mercado de trabalho não deixando de lado a questão espiritual.


P - Os projetos, na sua maioria, vêm demonstrando eficácia em questão de números?

R- Eu tenho, por exemplo, pessoas que faziam uso de drogas e hoje é professor da nossa escola, professor do Estado. Tenho o exemplo de João que é ex-morador de rua, quando ele entrou no projeto veio com toda a bagagem de presídio e roubo, hoje ele é engenheiro civil e eu tenho tantos outros exemplos, mas nós não trabalhamos focados na maioria por que o que seria maioria? Para mim uma pessoa vale mais do que o dinheiro do mundo inteiro. Existe um posicionamento da Organização Mundial da Saúde mostrando que uma única pessoa recuperada pode recuperar mais 15 a sua volta, sua família, amigos outras pessoas na mesma situação, a própria sociedade é beneficiada com a ressocialização de um único individuo.

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