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A Leitura como um ato político no ‘Leia Mulheres – João Pessoa'

  • Foto do escritor: Jornalismocdh
    Jornalismocdh
  • 31 de jul. de 2019
  • 4 min de leitura

Atualizado: 23 de ago. de 2019


Descrição para cegos: A imagem é um retrato da escritora brasileira Conceição Evaristo. O foco está em seu rosto, de semblante sério. Na orelha esquerda, usa um brinco em formato de gota que chega a encostar em seu ombro. Foto: Reprodução


“Da língua cortada, digo tudo, amasso o silêncio e no farfalhar do meio som solto o grito do grito do grito e encontro a fala anterior, aquela que emudecida, conservou a voz e os sentidos nos labirintos da lembrança.”

(Trecho do poema ‘Meia Lágrima’, de Conceição Evaristo)


Por Maria Catharina Belo


A escritora mineira Conceição Evaristo, vencedora dos prêmios Jabuti (2015) e Bravo! (2017), juntou à sua disposição de compor a Academia Brasileira de Letras (ABL) a força que reverberou de petições com mais de 25.000 assinaturas e manifestações nas redes sociais que incentivavam seu ingresso na Academia e prosseguiu com o movimento.

A candidatura à cadeira de número 7 foi oficializada com a entrega de uma carta de autoapresentação à ABL no dia 18 de Junho de 2018, na qual a autora falava sobre representatividade negra em um espaço que “congrega e difunde a literatura brasileira”. Dos 35 votos na eleição que definiria o novo ocupante da cadeira cujo patrono é Castro Alves, Conceição Evaristo obteve apenas um.

O desejo e a mobilização coletivos pela causa plural de uma escritora, que ocuparia um lugar de anunciação nunca antes ocupado por uma mulher negra, dentro de uma instituição cultural engessada predominantemente composta por homens brancos, ultrapassam o significado do ato isolado e reproduzem a necessidade de reeducação.


A literatura feita por mulheres se reinventa através de atos que transcendem seus significados isolados

Em 2014 a jornalista e ilustradora inglesa Joanna Walsh, propôs o projeto #ReadWomen2014, que consistia basicamente em ler mais livros escritos por mulheres, além de denunciar o machismo no mercado editorial. Walsh publicou um artigo no site da revista literária Befrois, no qual fala que apesar de mulheres lerem mais livros que homens e autoras serem publicadas numa quantidade comparável a autores, são mais facilmente ignoradas. A hashtag #ReadWomen2014 virou destaque no Twitter. 

Até que em 2015, em São Paulo, as amigas Juliana Gomes, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques tiveram a ideia de transformar a iniciativa em um clube de leitura, com encontros presenciais, no qual as obras lidas seriam exclusivamente de autoria feminina, o ‘Leia Mulheres’. Também foi criado um site colaborativo e grupos nas redes sociais onde ocorrem trocas de textos e conhecimentos. Hoje, há unidades do clube em mais de setenta cidades do país.

Os clubes são moderados pelas criadoras e contam com a mediação das mulheres responsáveis pelo clube na cidade. As reuniões acontecem uma vez por mês, em um lugar predeterminado, geralmente em livrarias, e é permitida a participação de homens. 

O ‘Leia Mulheres’ foi trazido a João Pessoa, na Paraíba, em março de 2016 por cinco mulheres: Camila Bezerra, Marina Prado, Yvanna Oliveira, Mayra Medeiros e Laíza Félix.

Os encontros acontecem no Slow Hostel, em Manaíra. A obra escolhida para a primeira reunião foi O Beijo de Deus, da paraibana Dôra Limeira, já afirmando o caráter representativo presente nas discussões. As escolhas das leituras são heterogêneas, já foram lidos Harry Potter (J.K Rowling), Orlando (Virginia Woolf), Quarto de Despejo (Carolina Maria de Jesus), e se sustentam na defesa do conceito de representatividade e na troca múltipla de experiências.


Mulheres que escrevem lendo mulheres que escrevem

Isabor Quintiere parte da Paraíba e vai para além dela. Formada em Letras – Inglês pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) é professora, criadora de mundos reais com elementos mágicos e de uma prosa inspirada pela literatura fantástica da América Latina e pela ficção científica, mostrando o que toma por identidade quando literatura e a imagem de si se misturam. Em 2018, com 25 anos, a autora lançou sua primeira coletânea de contos, A Cor Humana.

Ao perceber que seus autores favoritos eram majoritariamente homens, assumiu um movimento de transformação em seu processo de escrita. Enquanto se via como leitora consumindo obras exibindo uma presença fraca ou superficial das personagens mulheres se propõe a fazer diferente, “Quero colocar mulheres como protagonistas em situações absurdas, fantásticas, impossíveis. E isso parte diretamente da minha identidade”. Essa é a postura de quem toma a literatura como fio condutor da própria vida.

Isabor, enquanto escritora e mulher paraibana, se diz otimista ao ver o progresso, ainda que tímido, no que diz respeito ao espaço para autoras no estado. Considera como fatores importantes para esse movimento o surgimento de núcleos para discutir e valorizar as produções dessas mulheres, como o clube de leitura ‘Leia Mulheres’. Diz que “É uma alegria ver que os grupos não discutem apenas grandes nomes consolidados como Virginia Woolf e Clarice Lispector, mas também buscam dar visibilidade para quem ainda luta por espaço no mercado aqui e agora”.

A força do ambiente dos encontros literários promovidos pelo ‘Leia Mulheres’ tem contribuído para que questionamentos sobre o contexto feminino tenham alcances maiores, enfrentando uma configuração de sociedade que tem imposto uma postura de silêncio para as mulheres.

Apesar de haver uma disparidade entre o número de mulheres que vão às reuniões presenciais e o número de seguidoras que interagem nas redes sociais, o ‘Leia Mulheres, João Pessoa’ continua fomentando discussões indispensáveis para entender os lugares que a mulher ocupa na sociedade.

Acima de tudo, estimula e valoriza escritoras, colocando-as em evidência, para que mais mulheres ressignifiquem seus processos como Isabor Quintiere, para que tenham coragem de se lançar no novo como Carolina Maria de Jesus, para que possam se espelhar em Conceição Evaristo e se disponham a, diariamente, subverter o lugar de autoridade masculina na literatura.

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