Tantos Direitos
- Jornalismocdh

- 31 de jul. de 2019
- 5 min de leitura
Atualizado: 23 de ago. de 2019

Cena retirada do filme A Separação (2010) | A imagem retrata um homem e uma mulher. A mulher usa burca e ambos têm semblante aflito. Foto: Reprodução
Carolina Cassoli
Dizem que temos direitos. E que meu direito termina onde o seu começa. Chamam de direitos humanos, porque os seres humanos são animais racionais com maior capacidade cognitiva que os que não possuem todos os nossos atributos. Embora sejamos tão especiais, no entanto, foi preciso que os homens que nos representam (aqueles que criam guerras por poder) entrassem em um acordo que garantisse que todos teríamos alguns direitos assegurados.
No que conhecemos por nome - porque muitos sequer têm acesso à importância de tais palavras - como Declaração dos Direitos Humanos, trinta artigos versam sobre o que todo homem deveria ter garantido. E então, num documento feito por humanos para humanos, ocorre o que jamais deveríamos deixar acontecer: separam, em numerais romanos e frases curtas, o que teremos de lutar para conseguir.
Direito à nacionalidade, ao trabalho, ao lazer, à saúde, à educação, à cultura e a tantos outros elementos fundamentais à vida. Por esse caminho, ao longo dos anos, minorias se descobriram sem direitos ao perceberem que só outros eram vistos com dignidade e ergueram suas vozes para que tais direitos fossem discutidos e registrados. Em algum momento nessa história, descobrimos que o ser humano, embora plural, é intolerante à diversidade. Foi aí que a questão racial, de gênero, étnica, idiomática, sexual e religiosa encontrou seu lugar no topo do documento.
A Separação é um filme iraniano, lançado em 2010 e premiado nos mais diversos festivais de cinema do mundo. Três coisas nele, no entanto, me chamam atenção. A primeira delas: o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2012 foi dado a ele. Pergunto-me constantemente como é que um filme iraniano chegou até lá? Obviamente, para os Estados Unidos, os melhores filmes (sem designar “estrangeiro”) são sempre os seus. Discordo plenamente, mas moro no Brasil e não tenho muito direito de opinar quando se trata de coisas dos Estados Unidos. Eles conseguiram convencer a todos de que suas ideias são, realmente, as mais bem elaboradas do mundo (mesmo que os super heróis só salvem esse pequeno pedaço da América em caso de destruição do planeta).
A segunda delas: o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2012 foi dado a ele e quase ninguém o conhece. Falo do Oscar não por ser cinéfila, pois mal assisto a filmes. Falo sobre o Oscar, porque, irremediavelmente, se um filme a ele for indicado, meio mundo o conhecerá; mas se um filme for nele premiado, todo o mundo o conhecerá. Muito me espanta comentar sobre A Separação com meus amigos e ninguém conhecê-lo.
A terceira delas: o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2012 foi dado a ele e este trata de tantos direitos sem ter essa pretensão declarada que mal pude acreditar. Estamos falando de liberdade de crença ao tratarmos de Irã (onde a maioria da população é xiita), mas também nos deparamos com direitos humanos e protecionismo de gerações quando temos uma mãe que quer sair do país para proteger sua filha e um filho que não quer sair do país para cuidar de seu pai com Alzheimer. Tratamos de direito à escolha quando um casal precisa justificar os motivos que o leva à separação; algo que, no Brasil, já é obsoleto. Ainda encontramos, dentre tantos outros, um diálogo possível sobre direitos das mulheres e separação de classes, quando uma esposa trabalha escondida do marido e é agredida por seu patrão de nível social elevado.
A Separação mostra a realidade de um casal de classe alta, fundamentalista e que tem de lidar, assim como todo o país, com as mudanças incontroláveis da sociedade. Exatamente neste ponto, realidades se tangenciam e o Brasil, mesmo que geograficamente tão longe, se encontra próximo ao Irã. Num conflito ético entre parentes, panoramas políticos e ideológicos se refletem na vida de pessoas que foram criadas sob sistemas e jamais preparadas para lidar com a transformação natural (porém não agendada) deles. Mais uma vez, assim como no Brasil, o filme sem final concreto, deposita no jovem a esperança de entendimento e mudança da realidade vivida por tantos.
As possibilidades de discussão diante do enquadramento de direitos são muito grandes no filme e, por isso mesmo, me assustei ao perceber que poucos o conhecem. Vi aí, entretanto, a possibilidade de trazer este texto que é, nada mais que, o início de uma série de perspectivas acerca da religiosidade e, principalmente, direito à liberdade de crença. Antes de trazer outros conteúdos, no entanto, explicitarei o pensamento que cerca tudo o que virá. Não vejo saída, senão pela educação. Para que o cidadão brasileiro possa lidar com a questão da religiosidade, é preciso que, antes, o Estado assegure todos os outros direitos a ele prometidos. Pois, a aceitação da religião alheia toca a educação; o entendimento das matrizes religiosas toca a racialidade e a xenofobia; o respeito à escolha de não crer toca a laicidade do Estado, mas também a laicidade que cada um deve ter ao se tratar do individual. Neste sentido, filmes como este, podem ajudar na iniciação a conversas sobre religiosidade. Enxergo, então, a cultura como aliada à educação na indução à debates e discussões.
Em suma, os direitos humanos procuram garantir o básico para que nenhuma pessoa seja mais digna que outra. É difícil, no entanto, entender o que acontece com o mundo; porque o Artigo I resume tudo isso e diz que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”.
É complicado tratar de direitos, porque quando os temos e sabemos disso, queremos exigi-los. O que é um problema, porque a maior parte da população sabe que os tem, mas não se sabe digna disso, mesmo que a função prima destes seja garantir a dignidade de todos. É complicado falar de direitos, porque queremos garantir os nossos, mas pouco nos importamos com o do próximo. Dizem que meu direito termina onde o seu começa, a menos que você não saiba que ele começa e caminha ao lado do meu.
Tiro o seu para garantir o meu, porque diariamente, na manutenção de seus privilégios, os homens que criam guerras por poder nos põe pra competir por isso. Eles querem que o mais digno tenha tudo. E não foram eles que acordaram tais palavras para que fosse certo que ninguém é mais digno que o outro? É complicado tratar de direitos, mais complicado ainda tratar do cumprimento deles. Parece confuso e, assim como este texto e todo o resto do mundo, é. Mas falar sobre religião é falar de respeito. Antes de tudo, no entanto, é tratar de todos os outros direitos.

Comentários