Ser mulher em uma profissão “só para homem"
- Jornalismocdh

- 8 de ago. de 2019
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Atualizado: 23 de ago. de 2019

Descrição para cegos: Uma montagem com doze fotos, trazendo várias mulheres em seu local de trabalho com seus respectivos uniformes. Há: guarda prisional, jogadora de futebol, mecânica, serralheira, comandante, boxeadora, atleta, pastora de gados, sargenta, açougueira, capitã da Marinha e bombeira. Foto: G1
Por Maria da Graça Mellody
A vivência em um mundo no qual, em teoria, existem direitos básicos igualitários a todos, o que prepondera muitas vezes são estigmas e estereótipos culturais, os quais evidenciam que a sociedade não se encontra tão desenvolvida e evoluída como ela se diz.
Culturalmente, papéis de gêneros são colocados e tentativas muitas vezes cheias de obstáculos, cansativas e desgastantes tornam-se, também revolucionárias. Muitas mulheres que viveram sua infância, adolescência ou ainda grande parte de sua vida sendo submetidas a um processo de socialização de gênero buscam, a cada dia, espaço e representatividade, em processos de descaracterização de posses exclusivamente masculinas, como por muito tempo algumas profissões permaneceram.
Transpassar e chegar a um local majoritariamente é ocupado por homens não está apenas no ato de chegar, mas sim em um conjunto de fatores que atrelados a isso dificultam a permanência da mulher no ambiente.
Em muitos casos a jornada dupla, a qual cansa essa mulher, além dos problemas estruturais das empresas que não fornecerem ambientes adequados principalmente após a maternidade, não disponibilizam serviços de políticas públicas empresariais, e que quando disponibilizam debatem sobre "como lidar com o assédio", buscando alternativas para o "não sofrer das mulheres", no lugar de tentar extinguir tal impasse do local.
Tendo em vista os desafios citados, a permanência da mulher é ainda mais comprometida, já que a mesma recebe um salário inferior ao homem que ocupa o mesmo espaço e devido a isto, em muitos casos, quando se taxado alguém do núcleo familiar que precise deixar o emprego em prol da família, do lar e dos filhos, a mulher é a primeira opção a ser levada em consideração para exercer esse papel.
Progredindo diariamente, elas crescem na aviação, política, segurança pública, indústria automotiva, mecânica e tecnológica. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o qual fornece dados diversos a respeito da mulher no âmbito trabalhista, cerca de 43,8% dos trabalhadores, atualmente, são mulheres.
Dados da Força Aérea Brasileira indicam que desde de 2003 aumentou em 277% o número de mulheres e elas já equivalem a 14,55% do efetivo atual de militares. No entanto, elas ainda lidam a todo momento com o isolamento, piadas, assédio, atitudes de intimidação e o descrédito enquanto trabalham. Apesar disso, segundo o relatório da Global Gender Diversity Report, empresas que possuem mulheres em chefias, tendem a ser mais rentáveis, principalmente por elas contribuírem para o exercício da diversidade. De acordo com o IBGE, cerca de 37% das mulheres já ocupam chefia nas empresas do Brasil, porém nos cargos mais elevados, elas estão em apenas 10%.
Rita Moosavi, de 42 anos, nascida e criada na Paraíba, no município de Santa Rita, atua na consultoria do central de comando da empresa global de tecnologia da informação Dell, Inc. em sua sede no Texas, Estados Unidos.
Moosavi perpassou barreiras do preconceito por ser estrangeira em um país altamente xenofóbico e, junto a isso, lidou com a vivência em uma empresa predominantemente masculina. Para ela, foi difícil a trajetória que teve de traçar para chegar no cargo que ocupa hoje. Foram vários os episódios de desprezo e inúmeros os desafios.
Em seus anos de trabalho, ela não notou diferença no aumento do fluxo de mulheres na empresa, mas diz que foi bem aceita na empresa, e que a política da mesma propaga a igualdade e uma tolerância a nível 0. No entanto, Moosavi relata que, apesar de não ter passado por situações de assédio, amigas suas foram acometidas com tal circunstância, reportaram ao serviço de RH da instituição, que optou apenas por uma advertência ao indivíduo.
Ela tem uma filha que atualmente tem 12 anos, mas, na época de sua gestação, já trabalhava na Dell, e afirmou que foi tratada muito bem durante esse período, e logo que as seis semanas se passaram, voltou a trabalhar. Reconhece que foi um tratamento, de certa forma, privilegiado. "Com certeza seria diferente [em outro lugar como o Brasil], eu iria voltar de licença e no mínimo seria mandada embora. E assim que funciona no Brasil em muitos casos, não é?", relata.
A lógica trabalhista machista leva a mulher quase sempre à adaptação, porque há a imposição isso a ela, que a imperfeição lhe é característico. Algumas amigas de Rita se desligaram da empresa para ficar em casa com os filhos enquanto o marido se responsabilizou com as despesas da casa, uma realidade comum em muitos casos.
Muitas mulheres são subestimadas grande parte do tempo, por todos, e acabam por exercer sobre elas em alguns momentos o mesmo fim. Se um homem ao buscar algo que almeja é taxado como determinado, sonhador, a menina é acusada de viver em um conto de fadas, e se decidir liderar, é taxada como "mandona". Suas habilidades são associadas a fatores externos e as conquistas atribuídas à ajuda de terceiros, diferentemente dos homens cujo êxito profissional em especial, atribui a ele mesmo.
São muitas as dificuldades, Rita reconhece isso, e quando questionada sobre o que diria para essas mulheres que possuem sonhos de ocupar um espaço em um local profissional dominado por homens, e que se sentem receosas em tentar tal vontade, ela afirma, "Algumas pessoas me humilharam. Falaram na minha cara que eu não tinha capacidade de ser contratada para aquela função. [Mas] fui contratada. Ingressei na Dell em abril de 2011 e, desde então, já mudei de cargos umas cinco vezes. A cada mudança um novo desafio, que eu sempre sou vitoriosa. às meninas, eu digo: ‘Pelo amor de Deus, deixem o negativismo de lado. Insistam, corram atrás. Tudo que queremos nós conseguimos, porém temos que lutar pelos nossos sonhos. Se eu não tivesse corrido atrás dos meus objetivos, com certeza teria me arrependido. Hoje me sinto uma vitoriosa, guerreira onde não tenho medo de nada - só de aranha. Os desafios não acabaram, pelo contrário cada dia chega mais. Não é fácil, mas podemos!".

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