Poema: Visitamos o Porto do Capim
- Jornalismocdh

- 23 de ago. de 2019
- 2 min de leitura
📷 Descrição para cegos: Professora Patrícia conversando com uma estudante de jornalismo acerca da escola municipal do porto do capim. Foto: Thiago Félix
Lua Lacerda
visitamos o porto do capim
nós, de calças jeans e óculos escuros
visitamos o porto do capim
nós, habitantes ansiosos das gaiolas
nós, pássaros enjaulados nos prédios
visitamos. experimentamos dindim
entramos na escola da comunidade
nos deparamos com reformas inacabadas
& um cubículo que recebe 102 crianças
nós, estudantes de jornalismo da universidade
visitamos o porto
nós, com nossas câmeras fotográficas
escutamos a professora patrícia
falar dos alunos que ficaram para trás
nós, bons competidores pelo diploma
visitamos nassau
ouvimos as mulheres que organizam
a resistência local dizer que não
não sairão de lá a nenhum custo
dizer que sim, são muitas histórias
dizer que são 32 anos
nós, com nossas duas décadas de vida
visitamos. visitamos o porto do capim
& conhecemos o cosmo e a geração de cosmos
que fazem, limpam e navegam os barcos
sem jamais serem alfabetizados
pela escola do município
nós, com nossos cursinhos de inglês
nós, usando protetor solar
ficamos debaixo do sol assistindo
os trabalhadores enviados pela prefeitura
derrubarem a casa da potira tabajara
nós, com nossos lares repletos de margaridas
escutamos uma voz que dizia para sermos críticos
& não, não acreditarmos em só um lado da história
nós, que nunca seremos arrancados das nossas ruas
nós, que depois do almoço voltamos para as caixas
fomos ao porto
soubemos que anda faltando bastante água por lá
nós, com nossas garrafinhas estampadas a tica colo
nós, espantados com o concreto erguido sob sangue
nós, os escrivinhadores de textos pós-modernos
nós, os jornalistas da próxima década
nós, que clamamos pela exigência do diploma
nós, que acreditamos poder falar por eles
nós, com futuros planos de audiovisual
visitamos o porto do capim
nós, risíveis bípedes contrastantes
nós, com all star nos pés & baudelaire na mente
nós, erguendo as lentes para o rio sanhuá
nós, filmando as crianças e os velhos na pesca
nós, que nunca navegaremos o rio sanhuá

Tua poesia é uma facada, nunca deixe de escrever, te imploro.