Os franceses mentiram para mim
- Jornalismocdh

- 25 de ago. de 2019
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Descrição para cegos: Sala de aula da penitenciária Maria Júlia Maranhão fechada por uma grade e uma tela. Foto: Aldo Junior
Por Mikaely Rocha
Saindo da nossa rotina de aulas em salas brancas e climatizadas, eu e meu grupo da disciplina de Jornalismo e Direitos Humanos visitamos a Penitenciária Maria Júlia Maranhão em Mangabeira. Mas preciso voltar um pouco no tempo. Assim que soube da notícia que iriamos fazer essa vista me vi cheia de dúvidas: Eu deveria ficar animada? Deveria ter medo? O que eu posso fazer lá; O que eu não posso levar. Eu não sabia muito o que sentir ou o que esperar disso tudo, pois eu sei tanto de prisões quanto você, leitor. Sei de tudo que o imaginário social de quem vive aqui fora sabe: é sujo, é violento, é desumano, e cada um de nós julgamos se isso é justo, ou se não é. Subitamente, lembrei das aulas que tivemos na disciplina, todos aqueles conceitos escritos por intelectuais e professores universitários, toda aquela história dos Direitos Humanos contada pelo ideal da Revolução Francesa liberté egalité fraternité. Essas três palavras não saíram da minha cabeça até o dia de ir, perguntei a mim mesma se os franceses haviam mentido para mim, conclui que eles nunca nos disseram a verdade.
Fomos no carro com o ar condicionado ligado em contraste com o clima litorâneo tropical de João Pessoa, seguimos com a ajuda da maquininha que nos fala a rota do mundo, que tem a resposta de tudo e nos conecta com todos. Não podemos entrar com ela, “isso é mais perigoso que uma arma” nos disseram na penitenciária.
Assim que chegamos vi duas mulheres carregarem algo, como uma trouxa de roupas, daquelas que vemos em imagens que retratam a vida no interior nordestino, e que eu nem sei se é desse jeito mesmo, mas na entrada da prisão eu vi, e parecia bem pesado. Me prontifiquei para perguntar ao agente penitenciário se elas eram pagas por aquilo, ele respondeu de um jeito enfadonho que sim, que aquilo ali era o trabalho das detentas. Enquanto esperávamos para entrar, uma mulher chegou, e junto a ela uma menina de aparentemente 14 anos com um bebê em seu colo que com certeza tinha menos de um ano de idade. Não era dia de visita, mas aquelas três pessoas vinham de longe, de um desses lugares que quando escutamos o nome percebemos que nunca havia imaginado a existência e que também não fica na memória para que eu possa contar, de toda forma, era um lugar distante e os agentes cederam um visita fora do habitual. Passamos do primeiro portão com elas, e quando o segundo se abriu uma outra mulher saiu de lá chorando, ela parecia não saber se desabava no choro ou se apressava o passo para encontrar sua família.
Seguimos o nosso destino principal, que era conhecer o Castelo de Bonecas, um projeto da penitenciária no qual as detentas fabricam bonecas e bolsas de pano, toda a produção é vendida e 50% do lucro é para o custeio do projeto e os outros 50% é divido entre as mulheres que lá trabalham. No caminho nos deparamos com um lugar estranho, sufocante, muros altos, muita areia e o único contato com o mundo lá fora me parecia ser através do som, o barulho dos carros, das motos e dos caminhões que passavam ao lado dessa muralha. Esse lugar estranho era também pequeno, só conseguimos ver as janelas da cela, na verdade não sei se posso chamar de janela aquela lacuna extremamente alta e com grades, aquela janela é tão uma não-janela que as mulheres a usam de prateleiras, colocam seus colchonetes velhos enrolados e suas vasilhas plásticas, talvez seja uma organização para tornar tudo aquilo com a aparência de lar, ou, apenas o único local que há dentro daquele minúsculo espaço onde cinco pessoas dormem.
Fomos recebidos com muitos sorrisos e olhares de afeição das mulheres do Castelo de Bonecas, era um local que inicialmente não se assimilava com a ideia de prisão, havia janelas de verdade e apesar do cheiro de mofo, era ventilado. Havia muito material e bonecas prontas, as meninas estavam trabalhando em bolsas para um evento de medicina, foram encomendadas mais de 2mil. Um ambiente extremamente colorido, com janelas desenhadas e paredes lilás. Mas, o que me chamou atenção foi que, enquanto elas trabalhavam tocava música, era algo gospel, perguntei a mulher mais jovem dali se elas podiam escolher o que escutar, e ela disse que sim mas com certa restrição, ela tem 18 anos e me disse que por vezes conseguia escutar Weslley Safadão e coisas do tipo, mas que geralmente eram músicas religiosas. A chamarei de Anna. Anna nos contou que estava lá por causa de seu namorado, motivo este que nos foi dado por outras detentas naquela manhã. Ela me contou que chegou há apenas dez dias, sete deles passou no que chamam de “reconhecimento”, que é quando apenadas novas chegam e são colocadas em uma cela sem colchão e com um balde, e a partir disso a administração da penitenciária identifica onde e com quem cada uma delas irá ficar. Anna teve a “sorte” de ir direto para o Castelo de Bonecas, que é onde ficam as mulheres com melhor comportamento. O Castelo tem um total de quinze detentas, numa penitenciária de mais de duzentas pessoas apenas quinze delas tinham a “oportunidade” de estar naquele projeto. Os franceses mentiram para mim. Anna me contou brevemente das agentes, que havia as legais e as más, a que nos acompanhava nessa visita era uma das legais. Me disse também que queria sair logo dali, e terminar o ensino fundamental, que queria ter escutado mais a sua mãe, e que era muito jovem para aquilo tudo. Ela repetiu diversas vezes a sorte que teve em ir direto para o Castelo, mostrou temor ao “corredor”, que é um outro local da penitenciária onde ficam as mulheres do regime fechado, e as que não tem um “bom comportamento” como Anna. Terminei aquele dia e todos os outros em seguida sem saber o que é um bom comportamento para um lugar como aquele.
Olhei tudo mais um pouco e encontrei uma boneca da Frida Kahlo, a artista mexicana que se tornou um ícone para o movimento feminista, perguntei a elas se sabiam quem era aquela personalidade, me disseram que uma pessoa havia feito o pedido e que foi até o Castelo para contar a história de Frida, que, como algumas das que estavam ali, tiveram perdas e tristezas em sua vida por causa de seus companheiros. Passamos um bom tempo ali, sinto que todos os meus colegas haviam esquecido do que tudo aquilo se tratava, de tudo que nos rodeava. Isso durou para mim até a hora de ver a sala de aula que ficava ao lado do Castelo, a porta da sala tinha uma grade, eu nunca havia visto um local de aprendizagem como uma jaula, um lugar de contenção, ironicamente havia frases nas paredes como a de Paulo Freire que diz “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas mudam o mundo”. Todo aquele cenário me pareceu algo que encontramos em livros distópicos que precisam explicitar incoerências para nos mostrar a realidade. Os franceses mentiram para mim. Tivemos que seguir em diante com nossa visita, as mulheres que tínhamos conhecido não podiam ir com a gente, toda a normalidade que elas conquistaram naquele lugar foi rompida,
A agente que nos acompanhava conseguiu que visitássemos a biblioteca da penitenciária que ficava no lugar que Anna temia, o corredor. Entrando no corredor a primeira coisa que vimos foi uma igreja, era como um oásis no deserto, totalmente em contraste com a arquitetura da penitenciária. A igreja tinha portas de vidro, cerâmicas e cores quentes no lado de fora. Quando entrei percebi logo a diferença, era um lugar frio e muito limpo, muito branco por dentro. Havia um coral e uma banda, ambos formados pelas mulheres de lá, o professor era um homem, ele nos recebeu com muito entusiasmo e nos contou num monólogo sobre todos os seus projetos: onde atuava, em qual lugar mais tocava, falou sobre sua vivência na música e no mundo. Elas não falaram em nenhum momento. Eu honestamente não escutei muito do que o músico disse, queria ter falado com elas, mas antes de qualquer oportunidade o tutor foi logo apressado dizendo o quão grato estava de nos receber, e de que poderíamos ver suas apresentações em tal lugar do qual felizmente não me recordo.
Seguimos em direção à biblioteca, que era também uma sala de aula. A aula já havia acabado e a professora estava arrumando tudo junto com outra detenta, que chamarei de Maria. Maria nos contou que era responsável pela biblioteca, que atendia os pedidos das outras mulheres e dava baixa, que fazia o controle daquelas histórias. Ela disse que o que mais pediam eram livros de romance, e que a leitura ajudava a passar o tempo. Quando descobriu que éramos estudantes de jornalismo foi logo falando que já havia iniciado e cursado uma parte de jornalismo e de publicidade, mas que agora com a toda a vivência na penitenciária, iria fazer psicologia. Quando terminou de nos dizer isso tivemos que ir embora, mas ela parecia querer nos contar algo mais, o que não foi possível. Mas já havia chegado a hora do almoço, que é feito e servido pelas próprias mulheres. Aquelas poucas mulheres de duzentas e tantas que como recompensa de um bom comportamento conseguiam um trabalho.
Passamos a manhã conversando diretamente com as detentas daquela penitenciária, mas, surpreendentemente, o momento que me incomodou nisso tudo foi o final, quando nos encontramos com o responsável pelo projeto de remissão pela leitura, em poucas palavras digo que é um projeto onde as mulheres são direcionadas a uma livro, ao final da leitura elas precisam fazer uma resenha, uma prova, e defender seu ponto de vista para comprovar que leu o que lhe foi indicado. A cada livro lido são quatro dias diminuídos de sua pena, são seis livro ao ano, ou seja, vinte e quatro dias subtraídos de trezentos e sessenta e cinco. O coordenador daquele projeto me pareceu muito confuso em suas ideias, especialmente quando tentou nos mostrar o quanto aquela penitenciária era respeitosa, e que estava de acordo com todo o ideal de direitos humanos, ele é o francês.
Os franceses mentiram para nós ao maquiar aquele local, o que não fazia sentindo para nós pois só conseguimos ver as melhores parte de tudo, com mulheres selecionadas pela lógica meritocrática do bom comportamento, com agentes legais e músicos individualistas. Os franceses mentiram para mim ao dizer que todo aquele projeto era por um bem maior da cultura e educação, disseram com frases bonitas como a de Paulo Freire. Mas, tudo isso era suspenso no momento que ele dizia “lembrem-se elas não são coitadinhas”, “não são vítimas da sociedade”, “se alguém fizer vocês acreditarem nisso, é mentira”, percebi que todos aqueles projetos seletos só ampliava a lógica e o sistema que nos cerca aqui fora, o neoliberalismo está nas prisões. Eu sei tanto de prisões quanto você, leitor. Sei de tudo que o imaginário social de quem vive aqui fora sabe: é sujo, é violento, é desumano, é neoliberal e meritocrático, e cada um de nós julgamos se isso é justo, ou se não é.




Texto muito legal, me senti ali naquele lugar . Sim eles tbm mentiram pra mim.
Narrativa fantástica, realidade impactante.
Fodaaa Mikaa! Estava lá e senti o mesmo... Muita massa a forma que você narrou os fatos e esse poder de síntese entre o macro e o micro desse sistema desigual e injusto em que vivemos. Parabéns ;)
ótima reflexão
Parabens pelo texto sensível e provocante. Eles mentiram para mim também!