Centenário da Bauhaus
- Jornalismocdh

- 9 de set. de 2019
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Descrição para cegos: Logo da Bauhaus feita por Walter Groupius, com formas geométricas e cores primárias características da Bauhaus.. Foto: BAUHAUS-ARCHIV BERLIN
Por Micaely Rocha
Apresentando a ideia do moderno e industrial “Desejemos, inventemos, criemos juntos a nova construção do futuro, que enfeixará tudo numa única forma” Walter Groupius (1833–1969), arquiteto e fundador da Bauhaus, acreditava no novo, em fluxo com a sua realidade.
Em 1919, a Alemanha estava do lado derrotado da Primeira Guerra Mundial, e assinava o Tratado de Versalhes, acordo de paz que a culpabilizava e responsabilizava por diversos custos posteriores. Com suporte de que a mudança era necessária para a revitalização do mundo artístico, Gropius então renomeou a antiga Escola de Artes do Grão-Ducado da Saxônia, para nomear a então Staatliches Bauhaus, a primeira escola de design do mundo.
O momento histórico que vivia a Alemanha não poderia mais suportar a moralidade e a estética obsoleta que regia a república, um país que não dialogava consigo mesmo se viu sede de uma grande inovação, representando o que há de progresso e moderno.
Para Carlos Cartaxo, escritor e docente da UFPB, no curso de Rádio e TV, no qual ministra as aulas de direção artística, a Bauhaus é fruto da modernidade tardia. Consequência de um atraso na intelectualidade do momento.
Seja na ordem, seja no pensamento, a Bauhaus surgiu para refletir e reorganizar a arte, a arquitetura e o design. Carlos vai dizer que “quando a Bauhaus surgiu no século XX, era algo que rompia com a estrutura já montada, nesse sentido, causou estranheza. Até hoje causa estranheza, as escolas da modernidade sempre provocaram esse sentimento, porque surgia da revolução industrial, e estava ligado a conceitos freudianos e marxistas.”
Seus alunos eram incentivados a prática, sendo a universidade um local para experimentação e para a busca de sua individualidade, mas sempre lembrando da conexão entre arte e tecnologia – um dos preceitos da filosofia da Bauhaus. A grade de professores da escola, abrigava grandes nomes do meio artístico como Paul Klee, Wassily Kandinsky, László Moholy-Nagy, Josef Albers, Mies van der Rohe e Marianne Brandt, mas o legado de tais não havia –ou pelo menos não devia – de importar, pois, uma das ideais que a o movimento trazia, era o de igualar o artista e o artesão, sem preceitos hierárquicos, para que todos pudessem conhecer os processos de elaboração e finalização de uma obra.
Para além da definição de moderno, a escola despontava para o uso de linhas simples, retas e formas geométricas, e os estudos das cores, tendo destaque para o vermelho, azul e amarelo.
É perceptível, a influência da Bauhaus na produção brasileira, não exatamente na estética, mas no modo de criar e de ensinar. A vanguarda estimulou nomes como o de Lygia Clark, artista do neoconcretismo brasileiro. Além, de ser uma fonte para Ivan Serpa na criação e ensino de seu movimento vanguardista, o Grupo Frente, que aflorou nomes como o de Hélio Oiticica, artista plástico dotado de ideias revolucionárias e propulsor de vanguardas no cenário cultural brasileiro, como a tropicália.
A professora do ensino básico de artes Jija Dantas destaca a interferência que a escola teve no seu método de lecionar “quem lida com ensino de arte na educação básica, precisa experimentar o novo e provocar nos adolescentes ou mesmo nas crianças o interesse em despertar a criatividade e ao mesmo tempo também fazendo uso da técnica aliada a expressão da emoção”.
Sem dilação, a vanguarda incomodou as camadas mais conservadoras da região. Alegavam que a escola disseminava ideias comunistas, algo até com essência de profano. Dessa forma, a escola sucumbiu a forças maiores – o Nazismo –, seus professores acabaram se exilando, o que por vez conduziu os ideais da Bauhaus para além de seus mares. É importante que não se perca o fato de que ter sido censurado foi algo violento, mas as chamas das ideias da Bauhaus não poderiam – e nem foram – apagadas pela gélida intervenção nazista.
No entanto, apesar de em sua maior parcela ir contra a maré vigente totalitária, houve integrantes da escola que serviu ao regime como é o caso de Herbert Bayer, que a partir de 1933 atuou como propagandistas do Nazismo, onde produzia catálogos racistas e suprematistas.
O fato é que, a Bauhaus após um século de abertura continua ativa, e somando positivamente no mundo das artes, design, arquitetura, dança, teatro e tecnologia. Jija Dantas ressalta que quando propõe em sala de aula um artista como Kandinsky que colaborou com o movimento, sente como se tivesse produzido suas obras recentemente. Causa sempre um olhar de um artista de vanguarda perante os alunos.
O filósofo Jean Lacoste, vai lembrar que através da construção exclusiva do pensamento, é possível fazer surgi o corpo de uma obra, e a Bauhaus conseguiu – e ainda consegue – transformar um espaço essencialmente conservador, numa atmosfera libertadora.
A sua influência mística e concreta é transpassada em sua gênese. Em comemoração ao centenário, o Bauhaus Museum em Dessau, na Alemanha foi inaugurado com o apoio de uma sociedade que um dia a repudiou. Naturalmente a Bauhaus é como um bom vinho, envelhece bem.




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