O que é a Educação do Campo?
- Jornalismocdh

- 4 de set. de 2019
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📷 Descrição para cegos: em campo aberto, educadores e crianças dão as mãos. Ao redor, moradores da comunidade assistem. Foto: MST
Por Lua Lacerda
Na Paraíba, assim como no restante do Brasil, é frequente que crianças e jovens se desloquem de suas comunidades, sejam eles camponeses ou indígenas, vindos de acampamentos ou assentamentos, para estudarem na cidade e, em decorrência, se integrarem a urbanização. É nos centros urbanos que as populações do campo encontram acesso para as necessidades mais básicas, como saúde e educação, ali garantidas pelo Estado.
Esse fenômeno de migração fecunda na realidade nacional uma rígida separação entre campo e cidade. No Brasil, país com estrutura agrária arcaica e obsoleta, o fenômeno de esvaziamento das zonas rurais e a superlotação da zona urbana é explicado pelos teóricos como efeito do desenvolvimento dos latifúndios do agronegócio e a distância cada vez maior da reforma agrária.
Em consequência disso, o funcionamento das escolas sofre com a deterioração na qualidade de ensino, que deriva dos limitados investimentos para esses setores, culminando, cada vez mais, no fechamento e, até mesmo, na demolição dos prédios públicos. É o caso de duas escolas no Brejo paraibano, zona rural de Areia, fechadas no início do ano passado sob alegação do número de alunos não ser o suficiente para justificação dos gastos.
Em virtudes desses fatores, surge nos movimentos sociais, no final da década de 90, uma necessidade cada vez crescente de se ter uma educação própria às crianças e jovens desses espaços, isto é, uma educação pensada e voltada para as necessidades do campo. É resultado dessa luta a criação e institucionalização do curso de graduação “educação do campo” que já vigora em várias universidades brasileiras.
Na perspectiva de entender do que se trata essas ações pedagógicas voltadas ao campo e em que se diferenciam das demais, a professora Socorro Xavier falou acerca da importância da expansão da pedagogia rural para o seu pleno desenvolvimento. Socorro atua no Centro de Educação no Curso de Pedagogia - Educação do Campo da UFPB e esteve engajada com a fundação do curso nessa instituição de ensino.
Lua Lacerda (LL): Em que ano o curso Educação do campo foi implantado na UFPB e em que difere do tradicional curso de Pedagogia?
Socorro Xavier (SX): Ele foi criado em 2009, a partir do programa de expansão REUNE. A principal diferença em relação ao curso de pedagogia é a questão da área de aprofundamento. A educação do campo é um projeto, uma proposta, uma concepção fundamentada na educação popular. Surgiu dos movimentos sociais do campo e se tornou também uma política educacional. Inclusive, foi criada como uma modalidade de educação que segue princípios que vão orientar as práticas pedagógicas dos educadores nas escolas do campo.
(LL): Como surgiu no Brasil essa noção de educação?
(SX): A educação do campo surge dos movimentos sociais porque eles perceberam, ao longo do seu processo de luta e conquistas das terras, que a educação é um elemento essencial para o fortalecimento da luta e para o fortalecimento do desenvolvimento do campo. Não adianta apenas ter a terra, é preciso também ter outras políticas que fortaleçam o modo de vida no campo, sua condição de vida e sustentabilidade. E nessa direção eles começaram, desde cedo, em se preocupar a ofertar educação para as populações ainda dentro dos acampamentos, já que neles as famílias ficam dias, meses e até anos acampados até que se resolva o conflito.
A família vem com as crianças e por isso os movimentos começaram a se preocupar em desenvolver escolas durante os acampamentos. Com isso foram desenvolvendo métodos próprios fundamentos na educação popular para fazer uma educação que se adequasse às condições e ao modo de vida daquelas pessoas. Com o desenvolvimento dos assentamentos eles foram aperfeiçoando essas propostas e refletindo sobre elas. O MST tem vários documentos, cartilhas e livros escritos sobre a proposta de educação que eles defendem. Isso foi avançando e, em 1997, o movimento coordenou o Encontro Nacional de Educadores da Reforma Agrária.
Nesse primeiro momento eles observaram as dificuldades e os problemas da ausência de escola no campo, da precariedade das instituições e do índice de analfabetismo. A partir disso perceberam a necessidade de fortalecer uma proposta, uma reivindicação de uma política educacional específica para o campo. Nisso eles percebem que é necessário fazer uma articulação maior e chama para o ano seguinte, 1998, a primeira Conferência Nacional de Educação do Campo e lá foi amadurecida a ideia que a educação que eles desejam ver implementada no campo pelo Estado é diferente. Que deveria atender aos anseios de trabalho e cultura das populações rurais. Assim seguiram lutando e conquistando esse direito dentro da lei.
(LL): Qual a importância da educação do campo?
(SX): A ideia é que a educação fortaleça o modo de vida e identidade dessas populações. O papel da escola é fazer com que eles próprios reflitam sobre suas realidades e, dessa forma, transformem-na sem precisar abandonar sua região e seu povo. Cada vez mais há um problema sério dos jovens não quererem permanecer no campo e esvaziá-lo.
(LL): Qual as dificuldades enfrentadas nessa modalidade de ensino?
(SX): O maior problema que está acontecendo no Brasil nesse momento, e aqui na Paraíba isso foi muito acentuado do último ano para cá, é o fechamento de escolas. A evasão está se dando forçadamente pelo próprio poder público que fecha as escolas e obriga os estudantes a estudarem na cidade. Eles julgam oneroso manter uma escola com poucos estudantes. Muitos municípios estão fechando e agora a onda é derrubar as escolas. No município de areia esse ano já foram derrubas umas três escolas. Eles destroem a escola, não deixam sequer o prédio para a comunidade usar para outras finalidades.
(LL): Tem alguma escola aqui na Paraíba que é referência em educação do campo?
(SX): Tem uma em Zumbi dos Palmares. Fizemos formação continuada com os professores da escola por quatro anos. Nessa época eles começaram a desenvolver ações pedagógicas baseadas em temas porque uma forma de trabalhar com essa realidade é através de temas geradores, como já pensava Paulo Freire. Então trabalhamos temas relativos a eles. Só que com o tempo percebemos o abandono dessas ações. Eles não incorporam no cotidiano da escola. Em Cruz do Espírito Santo tem uma escola que vem realmente fazendo isso, se chama Campo, Semente e Muda, fica em um assentamento. É uma das poucas escolas estaduais que possui ensino fundamental.

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