Moda revolucionária
- Jornalismocdh

- 9 de set. de 2019
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Descrição para cegos: Fotográfo tirando foto de seis modelos.
Por: Carol Picado
Em 2013, logo após o desabamento do Rana Plaza, uma das maiores fábricas de confecção de Bangladesh, um conselho global formado por pessoas que trabalham no ramo da moda se reuniu para repensar o futuro dessa indústria, que segue um caminho destrutivo, tanto no sentido de recursos e poluição, quanto no sentido humano. No episódio do Rana Plaza, foram mais de mil mortos e 2.500 feridos.
No começo dos anos 1990, houve uma certa “revolução”na moda, que foi o surgimento das lojas de moda rápida ( “fast fashion”). Essas lojas não têm esse nome a toa: o tempo que as roupas vendidas nesse segmento levam para serem produzidas é bem menor do que das outras lojas. O material é de péssima qualidade, tornando a roupa descartável, e as pessoas que confeccionam as roupas recebem um salário muito pequeno, classificando a mão de obra delas, de acordo com o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, como escrava.
Essa realidade não chegava até nós pois essas fábricas, chamadas de sweat shops, ficam localizadas em países pobres da Ásia e da América do Sul, tais como Bangladesh, Índia, Bolívia e Colômbia. As fábricas possuem cargas horárias exaustivas e condições de trabalho terríveis. Tudo isso em segredo, bem longe dos olhos do público e da mídia. Até o dia 23 de abril de 2013, quando foi noticiado em todo o mundo, o desabamento do Rana Plaza, local que abrigava fábricas têxteis em Bangladesh.
Haviam mais de 5 mil pessoas trabalhando e era horário de serviço (8:45 da manhã) quando o edifício colapsou. Durante as investigações, foi descoberto que os donos da fábrica sabiam das irregularidades e rachaduras do prédio, mas preferiram ignorá-las. Outra descoberta foi feita: essas fábricas instaladas no Rana Plaza atendiam lojas como Zara e H&M, grandes redes de fast fashion mundiais. Mais de mil pessoas morreram no desabamento.
Após a divulgação de que as lojas de fast fashions de países desenvolvidos estavam envolvidas, muitos profissionais do mundo da moda, desde estilistas até estudantes, decidiram se mobilizar e reunir para pensar o futuro da moda como um todo, desde a produção até o consumo. Daí surgiu o evento Fashion Revolution, que repensa todas as questões e luta por uma moda sustentável, em termos ecológicos e sociais.
No evento, são levantadas diversas pautas vigentes da indústria têxtil, como as condições precárias de trabalho que muitas marcas ainda sujeitam seus funcionários, e também a apropriação que essas marcas fazem de movimentos como o negro e o feminista, tranformando essas causas em produto, esvaziando o significado delas. O Fashion Revolution acontece no mundo todo, uma vez por ano, desde a Austrália até o Brasil, todos unidos por uma moda consciente.
O evento dura uma semana, e recebe várias pessoas da moda, sejam elas produtoras ou consumidoras, com palestras, desfiles e oficinas, priorizando sempre a moda com propósito.
A edição de 2018 foi, até agora, a maior edição do Fashion Revolution, com a presença de mais de 3,25 milhões de pessoas em eventos ao redor do globo, e com um engajamento cibernético de 720 milhões de postagens em redes sociais como lnstagram e Facebook. Esse movimento possui muita força na internet, a mesma que possibilita que o grande público tenha ciência das muitas atrocidades mas que também divulga muitas iniciativas incríveis de moda sustentável, que são uma alternativa para o consumidor que não quer financiar trabalho escravo.
Muitos ativistas da moda brasileira também aderiram ao movimento e, atualmente, ele acontece em 47 cidades brasileiras, de norte a sul do país. Após denúncias que envolvem desde lojas de departamento como a Riachuelo até grifes como a Animale e a Le Lis Blanc, que utilizavam trabalho escravo de bolivianos e colombianos e depois vendiam as roupas a preços exorbitantes, o engajamento dos consumidores e dos produtores de moda brasileira se viram na responsabilidade de alertar aos demais e fazer uma moda diferente. Surgiram, então, muitas lojas de slow fashion, sistema onde as roupas são feitas por pessoas que não estão em condição de trabalho escravo, recebem bem e cuja qualidade das roupas, por essas razões, é bem maior.
Uma das bandeiras do Fashion Revolution é saber como as roupas foram confeccionadas, e com isso surgiu a hashtag principal do movimento. que é a #quemfezasminhasroupas ou, em inglês, #whomademyclothes. A hashtag visa cobrar transparência das marcas quando se fala das condições de trabalho das pessoas que produzem a peça. Muitas marcas estão respondendo e muito mais pessoas estão querendo saber a origem do que estão usando. Uma pesquisa do próprio site do Fashion Revolution mostra que, durante abril de 2018, foram feitas cerca de 173 mil postagens utilizando a hashtag. Ainda de acordo com a pesquisa, cerca de 3838 marcas do segmento têxtil respoderam sobre como é todo o processo da roupa, desde a produção até quando ela chega na mão do consumidor.




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