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Consciência de Educação

  • Foto do escritor: Jornalismocdh
    Jornalismocdh
  • 23 de ago. de 2019
  • 3 min de leitura

Atualizado: 23 de ago. de 2019

📷 Descrição para cegos: Um desenho de duas pessoas numa fila de votação eleitoral. Arte: Nalim Tavares


Por Ricardo Melo


Encontrei um amigo de profissão quando estávamos na fila de votação. Eu iria votar no candidato A, que prometia reformas na educação. Me decepcionei quando escutei o meu amigo falar que votaria no candidato B, que menosprezou a educação. Disse que o brasileiro é muito inteligente já. Senti a necessidade de falar:

“Antes de 88, não tínhamos apoio formal do país para nos educar. Depois de 88, temos o apoio formal, mas não temos perspectiva. Professores se vestem de cidadãos, arriscam sua sobrevivência, tudo para estarem presentes. Quando entro na aula, meus companheiros não diferenciam a escola do parque de diversão. O quintal de casa é considerado um parque. Então eles festejam no parque.” – Comecei o meu discurso, na esperança de guiar meu amigo de alguma forma.

Falam que somos indisciplinados, feitos de laje. É fácil falar quando se olha do outro lado, longe da barulheira da sala de aula. Aqui ninguém se escuta. E se festejam, não é desmedido. É por saber que faremos barulho que nos jogam aqui; é por saber que jogam os professores aqui. Somos o galinheiro.

Depois de 88, formalizaram para se mostrarem democráticos ao mundo. Viva os Estados Unidos, todos têm ótima educação lá. É o que dizem. Unidos, de que América? Aqui somos desunidos. Aqui apenas nos jogam no galinheiro. Projetos? Todos na mala.

Do galinheiro nos mandam para prestar uma prova. Como estudar se não temos educação? O importante é assinar o papel e dizer para o mundo que milhões se inscreveram. Não importa a eficiência, mas a complacência. A história do pobre que se tornou médico ou doutor é de impacto mundial, revitaliza a economia e a moral. Os 99% que falharam, foi porque não mereceram. É o que dizem.

O meu direito à educação é o direito a assinar um papel, observar a guerra nas ruas e não entender nada. Se nada entendo, nada farei. E assim está bom para o famoso Estado. Como falam de igualdade se nossas riquezas não nos dão realidades iguais? Como falam de gravidade se caímos porque não temos chão? Não, direito ao cidadão, desse tipo nós não temos não.” – Finalizei, então, o meu discurso.

Meu amigo então perguntou: “E como você está aqui?”

Percebi então que o raciocínio desse meu amigo não estava aberto a outras perspectivas. E falar do óbvio era algo entre complicado e doloroso: “Se estou aqui, então não faço parte da lei. Sou a exceção. Nenhum dos meus amigos de infância está aqui. Nem todos consegue abstrair a consciência de mundo. É para isso que a educação deveria servir. Nos guiar, mesmo aqueles que se guiam sozinhos. Imagine então como desenvolvidos intelectualmente seríamos." – Respondi a ele, e continuei:

“Se assim fosse, discussões como essas seriam desnecessárias. Então, concluo, se até você não foi guiado direito, se até você não conhece nossa realidade... a educação do nosso país é ainda pior do que eu imaginava. Por isso, se está assim tão ruim, o mínimo que posso fazer é votar pelo candidato que não menospreza a educação."

Completamente desnorteado, o meu caro amigo nada falou durante dez minutos de espera. Talvez fossem os piores dez minutos de sua vida. Notei o suor que brotava na sua testa. Parecia, finalmente, uma decisão de vida ou morte. Talvez questionasse todas as suas decisões até então, de que lado ficou durante toda a sua vida. Era possível até se questionar sobre sua mera presença ali.

Quanto a mim, nada falei. Era o momento de minhas palavras fazerem algum efeito. Entre o conflito e a paz, optei pela revolução. Se fiz ou não, não tive como saber. Após a votação, meu amigo apenas me deu um tchau. Pelo seu sorriso, parecia tranquilo. Se escolheu a educação, também parecia poder ter escolhido a subjugação.

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