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A Nova Escola Do Rap & A Crise De Identidade Brasileira (parte 2)

  • Foto do escritor: Jornalismocdh
    Jornalismocdh
  • 9 de set. de 2019
  • 14 min de leitura

Atualizado: 10 de set. de 2019


Descrição para cegos: a imagem é uma montagem gráfica com uma casa branca escrito “trap” na faixada, ao fundo, um carro com um desenho da bandeira dos Estados Unidos à esquerda, Donald Trump é esmagado por um rádio, que é segurado pelo rapper Afrika Bambaataa, ao centro, e a bandeira do Brasil à direita. No canto superior esquerdo tem uma imagem de um rapper escrito Afrika, e no canto inferior direito está escrito o título da reportagem. Edição: Gabriel Carulla.


Por Gabriel Carulla

Já vimos na parte 1 desse artigo quais são os fundamentos do trap e quem são alguns de seus principais representantes no Brasil atualmente, mas para entender o porquê da indústria do trap ser uma ameaça para a cultura Hip Hop no Brasil, temos que entender quais são os fundamentos dessa cultura. Para isso trouxe recortes de declarações oficiais de membros da Zulu Nation, a primeira ONG voltada para os interesses da cultura Hip Hop, fundada por Afrika Bambaataa no bairro Bronx em Nova York na década de 70.


Veja a tradução de um trecho de uma declaração oficial que está no site da Zulu Nation (zulunation.com):

“Fundada pelo próprio padrinho do Hip Hop, Afrika Bambaataa, a Universal Zulu Nation é a organização de Hip Hop mais antiga, maior e mais respeitada do mundo. Seus membros e apoiadores são os artistas mais famosos e lendários do Hip Hop.

Um pouco de informação básica: Nos primeiros anos da cultura, o movimento ficou sem título até Afrika Bambaataa, começar a chamá-lo de "Hip Hop", um termo originado por Lovebug Starski. Nos anos 70, dez anos antes de ganhar reconhecimento global, o Hip Hop era uma celebração da vida, desenvolvendo gradualmente cada um de seus elementos para formar um movimento cultural. Devido à sua energia, dinâmica e impulso, a cultura Hip Hop se tornou, em última análise, a chave para a elevação e reforma, bem como uma indústria de bilhões de dólares.

A partir dos anos 80, a indústria e a mídia do rap ajudaram a tornar os termos "Hip Hop" e "Rap" sinônimos, deixando de fora os outros elementos incluídos na cultura. À luz dessa enorme supervisão, a Zulu Nation promove o “5º elemento” do Hip Hop, que é o Conhecimento, e tenta ativamente educar as massas sobre a história e os elementos fundamentais da verdadeira cultura Hip Hop.


Bambaataa declarou:

“Quando fizemos o Hip Hop, esperamos que fosse sobre paz, amor, união e diversão, para que as pessoas pudessem se afastar da negatividade que estava assolando nossas ruas (violência de gangues, abuso de drogas, ódio por si mesmo, violência entre os descendentes de africanos e latinos). Mesmo que essa negatividade ainda aconteça aqui e ali, conforme a cultura progride, desempenhamos um grande papel na resolução de conflitos e no reforço da positividade.”

Hip Hop é o veículo para oferecer inúmeras lições! Afrika Bambaataa não acredita que as cabeças do Hip Hop devam apenas ter conhecimento de Hip Hop. Ele promove e prova que o Hip Hop pode ser usado como veículo para o ensino da consciência, conhecimento, sabedoria, compreensão, liberdade, justiça, igualdade, paz, unidade, amor, respeito, responsabilidade e recreação, superação de desafios, economia, matemática, ciências, vida, verdade, fatos e fé.


Os elementos:

A cultura Hip Hop é definida como um movimento que se expressa através de vários meios artísticos que chamamos de "elementos". Os principais elementos são conhecidos como MC (Rap), DJ, Writing (Graffiti), várias formas de dança (que incluem Breaking, Up-Rocking, Popping e Locking) e o elemento que mantém o resto: CONHECIMENTO. Também existem outros elementos, como percussão vocal / beat boxing, moda etc. Nos últimos 20 anos, a cultura hip-hop influenciou bastante o mundo do entretenimento com suas contribuições criativas em música, dança, arte, poesia e moda.

Devido ao seu desconhecimento sobre toda a cultura Hip Hop, muitos jovens do mundo se enganam ao pensar que atividades como: fumar cigarro, beber 40 anos, usar uma grife colada no peito, carregando uma arma ou indo para clubes de strip, são "Hip Hop". O Hip Hop está sendo retratado negativamente por muitos artistas que trabalham no elemento Rap (MC’s), e essa negatividade geralmente é instigada e promovida pela indústria fonográfica e por várias outras empresas que exploram a cultura às custas do estado de espírito e juventude dos jovens. moralidade. A Zulu Nation acredita que há uma diferença em falar sobre a negatividade (ativismo) e promovê-la como um desejo.

Gângsteres, cafetões, vigaristas, traficantes, niggers, chicanos e muitas outras palavras depreciativas que antes eram usadas contra nós agora são usadas por nós mesmos em nosso vocabulário cotidiano. Nossos ancestrais que lutaram e morreram tentando nos libertar dessas doenças e da mentalidade de escravos provavelmente estão revirando seus túmulos! Bambaataa pede que você pense sobre isso: "Como diabos passamos de deuses para cachorros?"

Afrika Bambaataa encoraja você a fazer mais pesquisas sobre a nossa história, a história dele / dela, e o que você acha que é o seu mistério, na verdade é a sua história. Onde estão nossos pensadores do Hip Hop, advogados, médicos holísticos, cientistas, agricultores / herbalistas, revolucionários, políticos, juízes, pesquisadores, professores, polícia, exército, contadores, antropólogos, etc. Onde está o nosso próprio Museu do Hip Hop? Muitos falam, mas não andam. Muitos estão esgotados para a libertação de nosso povo, bem como para todos os seres humanos no planeta chamado Terra! Ele também o incentiva a pesquisar em qualquer organização de Hip Hop que lide com a consciência e a elevação de todas as pessoas. A todos aqueles que propositalmente inventam sua própria história e mentem sobre a cultura - FAÇA SUA PESQUISA!”

Depois de analisar as palavras de Bambaataa, fica fácil perceber aonde os trappers divergem da Cultura Hip Hop e se alinham perfeitamente a Indústria do Hip Hop. É importante diferenciar esses dois conceitos, e perceber também que mesmo em beats de trap o MC pode sim honrar a Cultura, pois isso é uma questão de postura e não de ritmo.

Nesse momento vamos apontar alguns dos Rappers que vem lançando músicas em beats de trap, porém que fazem Rap muito antes do trap virar moda, e seguem os preceitos da cultura acima da indústria, comparando-os com os trappers que se alinharam aos interesses da indústria para conseguir fama e dinheiro, mas deixaram para trás os fundamentos do movimento.

“Profissões - DK 47, Rod, DoisT & Ducon (prod. Soffiatti)” – nessa produção lançada pelo selo Favela Cria, os MC’s interpretam no clipe e em suas letras, a vivência de 4 trabalhadores moradores de favelas do rio de janeiro, sendo o rapper DK 47 um Gari, Rod um vendedor de paçoca, Dois T um motoboy e Ducon um trabalhador da construção civil. Com certeza essa obra gera muito mais identificação à maioria dos moradores de periferias brasileiras do que aquelas como “Flack Jack” da Recayd Mob, onde os supostos bandidos periféricos seguram fuzis e pistolas e falam sobre tráfico e grifes estrangeiras.

No entanto, é possível ver como a indústria manipula o que as pessoas consomem quando observamos que o vídeo clipe de “Profissões” tem 116.793 visualizações enquanto o último lançamento da Recayd, “Sauce”, que saiu 2 dias antes deste já está em 419.481 visualizações e assim como “Flack Jack” (6 milhões de views) só reforça a lógica do consumo e da apologia às drogas e às armas.

“Thiago Elniño - Pretos Novos (part. Projeto Preto)” (3.900 views) – é inconcebível que numa realidade onde a indústria do trap realmente se importe com pautas sociais e com o empoderamento preto, esse clipe não esteja “no hype” ao lado dos Hits do trapper branco Matuê por exemplo, que passou dos 30 milhões em seu último lançamento com o rapper Predella, “Banco”.

Acontece que a indústria de fato não se preocupa com isso, apenas se preocupa em reforçar o consumismo e a desunião do povo, prova disso é que esse som de Thiago Elniño, que tem mais de 10 anos de Hip Hop e é conhecido por levantar pautas sociais em suas músicas, em parceria com o grupo Projeto Preto, que é um grupo de rap underground que tem como perspectivas centrais a autoafirmação de vida e reconstrução da identidade e auto-estima de pessoas negras através da arte, não chegou nem à 5.000 visualizações, e não foi por falta de qualidade ou talento, com certeza.

Fazendo uma análise ainda mais direta, segundo os dados do próprio You Tube, Thiago Elniño criou seu canal em 24 de outubro de 2010 e acumulou, somando todos os seus vídeos, desde então 803.710 visualizações. Enquanto isso, o trapper Matuê, que canta sobre drogas e grifes caras, criou seu canal em meados de 2016 e já acumulou mais de 240 milhões de visualizações.

“Arte do Gueto – Slim Rimografia (Prod. Rick Beatz) (155.000 views) – Silm começou a sua carreira profissional em 1996, mas antes já era b-boy e grafiteiro, acumulando mais de 20 anos de vivência no movimento Hip Hop. A música Arte do Gueto é um de seus mais novos lançamentos e adota a estética do trap, no entanto a postura e a letra de Slim são diretamente críticas à essa indústria fonográfica e em defesa da cultura periférica. A letra dessa música é um reflexo perfeito das contradições da nova geração do Rap nacional, veja:

“[Refrão]

Quando comecei era osso

Agora, mano, tenho os maços

Uns querem no fundo do poço

E o gueto, da cinza, renasce

Senti o peso da caneta

Labareda inflama no som

Agora que a grana é preta

Combina bem mais com meu tom

É arte do gueto, irmão

O din tem que voltar pro gueto

É arte do gueto, irmão

O din tem que voltar pro gueto

É arte do gueto, irmão

O din tem que voltar pro gueto

[Verso 2]

O progresso do rap me lembra o congresso: poucos preto

E dá pra contar na palma da mão dos branco

Talvez esse seja meu maior defeito

Rapper de causa, causa efeito

Talento pra fazer hit, insiste em lutar por direitos

Eles gostam de punchlines, eu sou One Punch Man

Entediado com essa cena fraca, uma linha de soco e não sobra ninguém

Também quero mansão, notas amansam

Povo não avança, só regredir

Só rapper gourmet, fofoca de MC

Que só alimenta ego e só foca em si (Refrão!)

[Ponte]

Quanto eu comecei era o--

[Verso 3]

Não que eu pregue a miséria

Vou além da matéria

Luto por causa sincera em pé na

Impera, não é mera coincidência

Fardas, Uzi, balas, luzes, encruzilhadas

Rajadas de fuzis, civis e farda

Becos, vielas, velas acesas, almas ilesas

Criança indefesas são presas fáceis, que alguém as salvem

Morros são precipícios, sem teoria Darwin”


Para entender o contexto da crítica de Slim de que o dinheiro tem que voltar pro gueto e de que o progresso do rap envolve poucos pretos, no mesmo ano o grupo Costa Gold, formado por dois MC’s brancos (Nog e Predella) de São Paulo, emplacou o Hit “Grimme”, produzido por outros dois produtores brancos (Pedro Lotto e BillyBilly). O Hit dos rappers brancos chegou a 21milhões de views no You Tube e a letra da música reforça mais uma vez os preceitos da indútria trap (competitividade, individualidade, consumismo, uso de drogas e armas), confira:

[Refrão: Predella]

Ei, me degolo, a bunda dela mexe, mexe mais que a peste

Ela rebolando, se embolando, vem falando

Tá querendo, tá causando febre, ei

Um quilo na mochila do chefe, ei

Ela passou no teste, ei

Um quilo na mala do Predella, passando um quilo pro Nog e repassou no dab

Dab, dab

Niggas in Paris

Niggas na Pompéia tão fazendo o pé de meia com o malote, que se foda todos vermes

Red, Red

Big Blood Ever

Vermelho do sangue derramado no chão

Vermelhão, cicatrize nessa tese

[Ponte: Predella]

Ei, tese, ei, tese, ei ei, nessa tese

Faço pela vida eu não confio na missão, desacredita, eu ponho pra cantar o ferro

Fere, ei, fere, ei

Quem com ferro fere, ei

Garante que jamais será ferido se mirar no ponto certo e acertar de shot head

[Verso 1: Predella]

Um paco é meu traço, é demais, tome

Traço de fato a minha anatomia

Mais um dia, faca nos falsos, fi

Falsos, eyes on me, para, mais hombri-

-Dade, hombridade e respeito se vê por aqui

Conceito e conduta mantida no peito no verso eu respeito a vila que eu vim

Cê não faz o que eu fiz

Cê não faz metade do que eu fiz pelos amigos e pela família, analise

Cê não faz um hit, cê não faz a classe

Cê não faz um beat, mano, cê só faz a diss

Que me diz que MC que é limitado não é quem fala de maconha, tá ligado? Ou liberdade de expressão

MC que é limitado, irritado, mal criado, querendo tirar proveito do sucesso dos irmão, pow

Predella no flow é um bagulho incomparável, com a tua banca toda banco tua bronca toda de bandido de internet

A situação se repete, mais um vai tomar

Vô acabar com a baga boa, busco na tua casa, voa

Busco tu agora, porra, mato sua família toda

Frustro os MC maçonaria

Damaçon acionada, Damassa no som executando

[Verso 2: Nog]

Agora é aquela a parte que o Nog rima

Tudo que ele fala é de droga e mina

Eu não sei porque essa revolta com a vida

Ele rimando acapella depois volta com a batida

E fala: Bitch, sit down, be humble

Ele fez o que cê fez, só que em um ano

Ele é desumano, rimando

E cê pode num gostar, mas é estranho

Ele vem com esse flow tão insano

Ele é fenômeno, e não Cristiano

E esses mano, cismando (Vai dá o cú)

Tão tirando

No beat do BillyBilly, shake that ass

Ele vem rimando rápido aqui nesse rap

E a dez mil pés

Deixando claro a diferença de um MC pra M-Class

Rimando ele é um psycho, o mais complexo

Com intelecto apto, fraco pra sexo frágil

Se ele tá no mic ele rouba tua brisa igual clepto

Disseram que ele não era nada mas foi de embalo

Até perguntaram seu CEP, e não é que não colaram?

Porque a vida não é GTA, pode até tentar

Vou te acrescentar que ele não te dá atenção porque tem DDA

Mas consegue fazer rap, tá no DNA

Eles querem ser Pop, Hanna Montana

Um dia na droga e uma semana na cama

Todos mano se dói porque num arranja uma transa

E quer a fama do Nog, ele quer a fama do Obama


É como Slim fala em sua letra – “Só rapper gourmet, fofoca de MC, que só alimenta ego e só foca em si”, enquanto essa nova escola representada por Nog e Predella demonstram uma preocupação em se auto afirmar o tempo todo nas letras, gastando suas linhas para se defender de críticas pessoais de internet ou para exaltar conquistas pessoais, os rappers que defendem de fato a causa Hip Hop buscam falar sobre questões sociais e coletivas, muito mais construtivas para o gueto. O grande problema é que a indústria dá mais visibilidade e poder para aqueles que abandonam as críticas ao sistema e os que lutam por igualdade continuam marginalizados (com excessão de poucos). Isso é bem retratado em outro verso de Silm – “Talvez esse seja meu maior defeito / Rapper de causa, causa efeito /Talento pra fazer hit, insiste em lutar por direitos”

4 – “Intacto$” - Menestréis MCs” (3.526 views) – grupo de rap do estado da paraíba, fundado em 2012 na periferia da cidade de João Pessoa. Na sua formação atual reúne 3 MC's: Daniel Atalaia, Edgar e Peter Fé. Em suas letras descrevem afinidade e vivências de universos paralelos a margem, com o foco na periferia onde habitam. Discutem temas como crime, pobreza, preconceito social e racial, tráfico, violência policial e consciência política. Abordando naturalmente na linguagem das ruas com expressões características do nordeste, reafirmando suas raízes regional e da favela. Confira a letra da música:

[Refrão]

Niguém vai nos parar

Ninguém vai nos deter

Nada vai nos abalar

Se tentar vai se fuder

*Niguém vai nos parar

Ninguém vai nos deter

Nada vai nos abalar

Não gostou vai te fuder

[Peter]

Sequência de jab isso é rap na mão (nada de armas)

Comedia é sem apelação vem na trocação

E brota as cara, a pista é amarga o golpe é baixo

Socando seu astro, nordeste no rastro

Fazendo o estrago, assiste sentado

assiste sentado.. (E fica calado)

Sem reação prontos pra ação meu bonde é legião

Deixo de cara no chão

porque todos que tentaram ficou de cara no chão

Tamo de inxure na mão e não falta disposição

Nessa canção linhas no ataque

sempre na defesa como um mandrake

Pra lá de araque perto do iraque

Se quer vim vem, mas se garanta no baque

[Edsgraça]

Não conseguiram nos parar!

Sem papas na língua edsgraça no ar (haaaa)

Ceis gostam muito de falar, então vou da motivo

até o ... de vocês apitar

Eu vim pra espantar o zé ruela, dar poder para favela

fazendo o seu reinado acabar

O gueto só vai ser empoderado quando matar bolsonaro

deixar no poste amarrado e sua cabeça arrancar

Sou sem noção e de outra dimesão

Alienação fudendo essa nação (Hey)

Presta atenção, Eu sei a solução

Revolta lapidada embotada no refrão (Jão)

Somos a evolução, sua pertubação

com a furia na mão deixo seu queixo ao chão

sem justiça não a paz só escravidão

suas raba vão tremer bando de cuzão

[Atalaia]

Sem ter sangue nobre

te trago umas rimas pura overdose

cantando em meu dia de sorte

Fuck, line, pop, marginal, trap, rock

transformando tudo, fique em choque

Flow Ragnarok brok linha de frente

estagnado soul independence

day noite quente tiro pra tudo que é lado

menestrel, destrutivo, pragmático, magma, clássico, inspirado

alter ego tá trancado( Ha Ha Ha) atalaia o mais odiado

alter ego tá trancado (Trá, Trá) atalaia o mais odiado...


Logo no primeiro verso Peter Fé traz uma linha que faz oposição ao porte de armas defendido pelo governo do atual presidente Jair Bolsonaro, que infelizmente vem sendo reforçado por muitos jovens da geração trap que vem gravando clipes com réplicas de pistolas e fuzis – ”Sequência de jab isso é rap na mão (nada de armas)”, o combate às ideias desse governo seguem no verso de Edsgraça – “Eu vim pra espantar o zé ruela/ dar poder para favela/ fazendo o seu reinado acabar/ O gueto só vai ser empoderado quando matar Bolsonaro / deixar no poste amarrado e sua cabeça arrancar”

Acontece que enquanto grupos como Menestréis seguem carregando os princípios de luta contra o sistema em defesa da periferia, surgem grupos da nova geração, influenciados pela indústria do trap, que já não demonstram se preocupar com essas pautas e estão apenas defendendo os próprios interesses, na afirmação do próprio ego, direcionando seus ataques à outros MC’s e grupos da cena local e não ao sistema. Isso fica explícito no som “Baratina” da 1210 Mob (8.238 views), composto por 3 MC’s (Padilha, Cubo e Stiff), o som reforça tudo aquilo que a indústria trap e o Presidente do país querem que a periferia deseje (drogas, armas, hype, ostentação, individualidade, competitividade e a desunião do movimento Hip Hop).

“[Refrão]

Bate crânio, baratina

1210 tá na pista (2x)

[Padilha]

Estúdio com mano Stiff

Hit caro porto grife

Grife caro porto as notas

Avisa que a boca é nossa

Tomando a cena de assalto

Assassinato silábico

Fiz o que nenhuma banca já fez

Rap de fato

A cena de jampa só da Bloco L

Tem Hit mais Hit a cena só ferve

E tem uns comédia que fala

Minha rima e meu rifle que sua boca cala

Há, real trap vivência

Foda-se a concorrência

Meu trap causa dependência

Droga forte com frequência

Trap, trap, trap, trap

Avançado, novo rico

Nós somos lords de fato

Lord trap hit caro

Só pedrada que nós lança

Inimigo nós te cansa

Filho da puta me passa o cachê

Meus manos não brincam na caça do cash

1210 tá na casa

Portando rima rara

Baforada na lata

As novinha se acaba

Chego chutando a porta

Quero que se você se foda

Minha rima pesada, bolada embaçada

Calando a porra da sua boca

Mistura Codein com Sprite

Ela me pede o bright

Meu bonde é todo do hype

Fumando Skank no pipe

GE tá causando um surto

Fazendo uns beat do bruto

Minha MOB te deixa de luto

Nós é trap, hit sujo!

[Stiff]

BROCO L...

Agora que Stiff avançou (yeah)

Agora que os hit virou (yeah)

Ela faz foda pós show (yeah)

No meu oitão cê sentou (yeah)

Doube L, double cash

Double hype, double pack

BLOCO L 1210

Double game, double trap

Essa é a fábrica de hit (yeah)

Stiff wonka no hype (yeah)

Paga logo nós exige (yeah)

Tentam contra que nós sabe (yeah)

Flow tipo o meu não existe (yeah)

Então pode ficar suave (yeah)

Tô fundendo várias bitch (yeah)

Só cola os de verdade (yeah)

Hype, hype, hype, hype

Trap, trap, trap, trao

Isso tudo é um pacto

1210 mexendo em cash

[Cubo]

Mais revoltado do que Cratos

Matando os deuses do Rap

Mais assassino do que Chuck

Uma chacina em cada track

Nessa porra eu dou meu sangue

A minha vida não é blefe

No meu bonde só os fiéis

Vacilão desaparece

Criado no crime

Sou cria do crime

PZ é o crime daquele modelo

Meu time é o crime

1210 é o crime, fazendo tremer o baile inteiro

Morte a toda a sua banca

Se ligou Cabron?

Foda-se o seu dinheiro

Bloco L tem o dom

Quando sua mina me vê

Ela se molha perde o ar

Me chame de Poseidon

Eu sou o dono desse mar

Se colar na pilantragem

Pode crer eu vou mirar

Só raça ruim de verdade

Não temos dó, vou atirar

Stiff na ambição,

Nigga no clorifórmio

Meus manos são inspiração

Não me conformo, isso é óbvio

Bloco L tá na casa

As mina mais quente que brasa

Meus cria soltando fumaça

Ligeiro se não embaça

Tamo fundendo a cena

Se você me ver nem ascena

Fazendo dinheiro pique mega-cena

Correndo mais que Ayrton Senna

É 1210 que tá na cena

Deixando os pela de luto

A minha vitória segue plena

Mike Tyson rajada de murro”


A ideia não é reforçar ainda mais a competição entre os MC’s, nem dizer quem tem mais talento, e sim analisar o que está sendo passado como mensagem em cada obra e qual legado estão deixando para as gerações futuras. A verdade é que todos tem algo para ensinar, algo de construtivo para dizer, e muitos tem um grande talento para escrever rimas e criar flows e melodias. Mas existem aqueles que se libertam das amarras do sistema e criam obras originais e existem aqueles que ficam reféns do sistema e reproduzem aquilo que já é feito por todos os outros que seguem as tendências da indústria. O Hip Hop é uma arma poderosa contra a soberania do sistema opressor, pois ele tem o poder de libertar mentes, por isso a indústria se esforça através da mídia para enfraquecer esse movimento, tentando transformá-lo em apenas 1 elemento, o Rap, e fazendo todos acreditarem que só podem fazer sucesso neste se falarem sobre as mesmas coisas, reforçando cada vez mais o consumismo – “Hit caro porto grife/ Grife caro porto as notas”. Tem um verso do rapper pessoense Fontes que exemplifica bem qual a intenção da indústria ao incentivar essas ideias – “O sistema quer que preto e pobre mate preto e pobre achando que é menos preto e pobre por isso, e que quem é pobre se sinta muito mais pobre quando não pode comprar um tênis de quinhentão pro filho” – (Privilégio, 2019 álbum Não Conformista).

O cuidado que temos que tomar é de não deixar a futilidade da indústria do trap tomar conta do lado político e social do movimento Hip Hop, principalmente no momento que vivemos no Brasil, no qual o governo legitima e aplaude os assassinatos cometidos pela polícia com o discurso de “bandido bom é bandido morto”, e a suposta guerra às drogas segue encarcerando e matando inocentes nas favelas. Será que é mesmo uma boa ideia transformar o Rap em uma competição de quem é mais bandido e usa mais drogas? Fica aí a reflexão.

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