Até que ponto vai a fé
- Jornalismocdh

- 29 de jul. de 2019
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Atualizado: 23 de ago. de 2019

Descrição para cegos: Na imagem há uma igreja de uma torre só, centralizada. A igreja possui cinco grandes portas e seis enormes janelas, sendo duas delas na torre e as outras quatros divididas na fachada.
Por Natanel Viana
Algumas músicas trazem em sua letra um pensamento crítico sobre nós mesmos, não é de hoje que essa forma de contar histórias existe. Fazendo refletir sobre diversos temas, as músicas muita vezes têm um papel construtivo na sociedade e uma canção que faz muito bem isso é O Pai Nosso dos Mártires. Composta pelo cantor, lavrador e poeta cearense, Zé Vicente, é uma canção que usa uma das orações mais conhecidas do mundo como base, o Pai Nosso. Com 38 anos de carreira, Zé Vicente faz uso da religiosidade para falar da luta do povo oprimido, nesse Pai Nosso tão peculiar, o compositor nordestino traz à tona tudo que foi e é silenciado.
Em uma leitura reflexiva da música, podemos dizer que se trata de uma poesia com melodia e que suas entrelinhas se referem ao povo que não cansa de lutar por um mundo melhor e também à política mal construída que se deu por meio de guerra, opressão, dor e morte.O Brasil é uma nação de histórias obscuras, de tantas mortes causadas pelos poderosos. Essa canção que caminha entre o passado e presente tem como principal papel trazer à tona algumas coisas que se perderam em nossos pensamentos e que só vemos nos livros e noticiários.
Tratando essa canção como a pura liberdade de expressão para a compor, Zé Vicente usa também outro direito: a liberdade de crença. A liberdade religiosa é um direito previsto por lei que dá a qualquer ser humano a livre cultuação de sua fé ou não, ele também determina que todas a pessoas têm que ser respeitadas pelas suas escolhas religiosas. Para produzir essa canção, o autor usa a sua religião para falar, em formas de versos cantados, sobre muitas coisas rebatidas como, por exemplo, pobreza e educação.
O primeiro verso da música vem falar do povo mais sofrido e esquecido pelos políticos, os pobres, referindo-se como “Pobres marginalizados”. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) , em censo levantado em 2017, 26,5% da população brasileira vive abaixo da linha da extrema pobreza, número equivalente a mais de 15,2 milhões de pessoas. Levantando essa problemática sobre a desigualdade social, ele quis retratar que o povo ainda sofre muito. Pessoas desabrigadas em um país onde políticos recebem milhares de reais por mês, o povo ainda passa fome. A dignidade humana está nas mãos de uma minoria que só pensa no próprio umbigo.
No segundo verso da primeira estrofe as palavras “mártires” e “torturados” vêm se referindo ao período irreversível da história nacional, a ditadura militar. Marcada por luta e dor, ela durou mais de duas décadas, matando centenas de pessoas, torturando outras centenas, além de deixar desaparecidos. Pessoas contrárias ao regime militar lutaram por seus direitos, foram perseguidas e mortas por recusarem a soberania do Estado, por isso a ditadura é algo que está marcado.
No trecho da música “Teu nome é santificado naqueles que morreram defendendo a vida”, muitas pessoas se sacrificaram ao longo dos anos, essas pessoas foram mortas por quererem o bem comum. Um deles foi o ativista político e ambientalista Chico Mendes, morto aos 44 anos de idade, em 22 de dezembro de 1988 por defender os seringueiros da Floresta Amazônica. A luta de Chico mendes desencadeou a ira dos grandes fazendeiros e de tão ambiciosos mandaram matar o sindicalista.
No quinto verso o autor diz “teu nome é glorificado quando a justiça é nossa medida”, pois bem, mas que justiça é essa? A divina ou a humana? Difícil colocar a justiça humana quando ela não é eficaz. Já a Justiça divina, para os cristãos e religiosos, essa sim é precisa e nunca falha. Para eles, o próximo plano, após a morte, é dividido em dois caminhos, o céu e o inferno. Caracterizando o céu como algo bom, os cristãos acreditam que só entra nele quem fizer o bem; já o inferno, contextualizado como o plano astral regido por dor, nele irão todas as pessoas que fizeram o mal em vida.
No penúltimo verso dessa estrofe, cita como é o reino de Deus, ou seja, o céu. Colocado como um lugar “de liberdade, de fraternidade, paz e comunhão”, o Reino é um lugar de plenitude; onde os presos serão libertados da corrente da dor, onde os que viveram sozinhos receberão irmãos. Um lugar onde a paz vai reinar, sem guerra e destruição e por fim, todas as pessoas no céu teriam algo em comum, o bem que fizeram em vida.
Saltando para o último verso na mesma estrofe vemos na frase “maldita toda violência que devora a vida pela repressão”, trazendo para a atualidade, podemos citar vários episódios. Mas o que se torna mais pertinente são alguns policiais que distorcem seu papel. Alguns que agridem o povo em manifestações em busca de melhorias para todos; essa parcela que é racista e preconceituosa, polícia que já não defende mais, mas sim que mata e destrói.
Podemos colocar toda a segunda estrofe como algo pautado pela educação libertadora e construtiva, é algo que pode mudar o mundo. No trecho “O pão da vida, o pão segurança, o pão das multidões, o pão que traz a humanidade, que constrói o homem em vez de canhões”, posso dizer que a palavra “pão” pode ser substituída facilmente pela palavra educação, sendo aquela que dá vida, que traz à vida e que muda a vida de qualquer pessoa.
Outro ponto relacionado com a educação é a segurança, no Brasil, a segurança foi distorcida, pois para muitos ter uma arma de fogo determina se você está seguro ou não. Acredito que segurança tem que ser repensada, pois ela depende muito da educação, quanto mais se educa pessoas, mais será maior a chance de elas não se envolverem com o crime.
A educação é para todos, é isso que Zé quis dizer com “o pão das multidões”. Capaz de construir o homem de maneira positiva só ela é capaz de mover as pessoas para o bom caminho, independente de religião. Porém, a educação é algo que sempre fica em segundo plano para os governantes brasileiros. Em um país que não investe em educação, mas tira o que tem. Que futuro tem uma nação que segue isso? Nenhum. Acredito que em uma sociedade que queira evoluir socialmente e economicamente a educação tem que ser a base de tudo.
O último parágrafo começa com o verso “perdoa-nos quando por medo ficamos calados diante da morte”, muitas vezes nos silenciamos para ficarmos vivos e livres, caso contrário a nossa vida estaria em risco. No Brasil, em 14 de março de 2018 mataram a vereadora Marielle Franco e o seu motorista. Marielle Franco era uma militante que lutava pelos direitos dos invisibilizados, mulher preta, criada na favela e bissexual, ela nunca se calou.
O segundo verso é marcado pelo pedido, sendo ele com dois lados: o de perdão e destruição. Então, vi aqui, neste verso algo corriqueiro de muitos cristãos hipócritas. Deixando toda a responsabilidade para o divino, eles, muitas vezes se abstêm do ato de perdoar, mas não se desgarram da destruição. Culpabilizando à Deus pela seguinte frase “se Deus quis é assim mesmo”, mal sabem ele que tudo que se acontece é um reflexo do que nós produzimos.
Nos último versos dessa canção, que foi marcada por bastante histórias, vemos um falar sobre de quem é filho desse Pai. “Pai nosso revolucionário, Parceiro dos pobres, Deus dos oprimidos”. Revolucionário? Parceiro dos pobres? Deus dos oprimidos? Não estou aqui levantando questões contra sua fé, mas sim, para dizer que mesmo ele estando a favor de todo o povo sofredor, muitas das vezes ele “some”, no sentido real da palavra, colocado desde o início do cristianismo como um ser espiritual que detém todo o poder. A própria Bíblia responde: existe o livre arbítrio.
*Texto baseado na canção Pai Nosso Dos Mártires (Teologia da Libertação), de Zé Vicente. Disponível em: https://www.letras.com.br/ze-vicente/pai-nosso-dos-martires

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