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A nova escola do rap & a crise de identidade brasileira (parte 1)

  • Foto do escritor: Jornalismocdh
    Jornalismocdh
  • 27 de ago. de 2019
  • 11 min de leitura

Atualizado: 10 de set. de 2019




Descrição: a imagem é uma montagem gráfica com uma casa rosa escrito “trap” na faixada, ao fundo, um carro rosa com um desenho da bandeira dos Estados Unidos à esquerda, Donald Trump usando um colar de ouro com o formato de um revólver, ao centro, e a bandeira do Brasil à direita. No canto superior esquerdo tem uma frase em inglês – “It’s a trap” – que significa – “é uma armadilha” – e no canto inferior direito está escrito o título da reportagem. Edição: Gabriel Carulla.


Por Gabriel Carulla


O Trap é uma vertente do Rap que surgiu no final dos anos 90’ no sul dos Estados Unidos, se popularizando na capital da Georgia, Atlanta. O nome trap que em português quer dizer “armadilha”, deriva de uma expressão popular do gueto americano, Traphouse, que faz referência a pontos de tráfico ou “bocas de fumo”, muito comuns no cenário caótico de brigas de gangue e segregação racial que permeava a região sul dos EUA, habitada em grande parte por negros e latinos, como pode ser visto no episódio 1 do documentário feito pela revista VICE, chamado, Noisey Atlanta - Welcome to the Trap.

Nesse contexto, o trap de Atlanta se tornou uma válvula de escape para as angústias dos jovens periféricos, assim como uma boa forma de lavar o dinheiro adquirido por alguns deles através do tráfico de drogas.

Curtis Snow, traficante e assaltante nascido em Atlanta, entrevistado por Thomas Morton da revista VICE, ao ser perguntado sobre o que é trap, diz:

- “É o que é. É uma armadilha. Um lugar em que você pode ser capturado. Só tem uma entrada e uma saída.”

E então Thomas prossegue:

- “E é por isso que se chama trap music?”

E Curtis responde:

- “Exato, onde tiver uma armadilha, tem um estúdio também. Essas porras andam juntas, de mãos dadas. Não dá pra ter uma sem o outro. Não dá pra ter a armadilha sem o estúdio, sem a droga. A droga é o que inspira o rap. [...] Saca, todo mundo tinha drogas. Todo mundo. Mas veja, a jogada era com o dinheiro. Essa porra de rap? Era a coisa perfeita (para lavar dinheiro). Tudo que você tinha que fazer era conseguir o Disco de Ouro (com a venda de álbuns), e aí você não precisava fazer mais nada além de pôr seu dinheiro nisso.”

O envolvimento com o tráfico também nunca foi negado pela maioria dos representantes dessa nova vertente, em músicas como “Trap House” de Gucci Mane e “Trap Or Die” de Young Jeezy, eles narram suas vivências vendendo drogas e fazendo dinheiro.

E assim a cena do trap girava, de maneira independente, se auto gerenciando. Conforme artistas e produtores como Zaytoven, Bleu Davinci, Gucci Mane, Chief Keef, Future, Young Jeezy e Migos foram crescendo mais e mais, não demorou muito até que o gênero se tornasse um fenômeno mundial.

É notável que com a ascensão do gênero ao mainstream, muitos dos rappers que costumavam vivenciar o tráfico nas traphouses, conseguiram sair do crime e viver da música, levando em suas letras as memórias de uma realidade dura e cruel, onde o racismo associado à falta de oportunidades de mudança social deixava como última opção a vida criminal.

No entanto, alguns deles não abandonaram o crime mesmo após faturarem muito dinheiro e acabaram sendo presos anos depois, como foi o caso do rapper Bleu Davinci e outros membros da Black Mafia Family, selo de rap e gravadora em Atlanta, que foi descoberta depois de anos pela polícia americana como um dos maiores cartéis de tráfico de drogas da região. O coletivo B.M.F., originado em Detroit, segundo o relatório oficial da força tarefa anti-drogas da polícia americana, DEA (Drug Enforcement Administration), acumulou mais de 270 milhões de dólares em jóias, veículos de luxo e imóveis, de 1997 à 2005, e possuía centenas de associados em todo o país.

Em meados de 2010 o trap chega no Brasil, discretamente, vindo a se popularizar apenas em 2016/2017 com representantes como Raffa Moreira (BC Raff), Matuê, Recayd Mob (Derek, Igu, Dfideliz, Jé Santiago, Spike...), entre outros. Acontece que, ao contrário do surgimento do trap nos Estados Unidos, no Brasil ele não surge em meio ao caos das guerras de gangue por pontos de tráfico, e sim no ”fluxo caótico” das redes sociais de jovens majoritariamente de classe média, que era então o principal público, e alguns poucos artistas de fato periféricos. Os próprios representantes dessa nova vertente do Hip Hop no Brasil já se colocam em uma postura diferente daquela adotada pelos artistas da velha escola, no sentido de não se posicionarem com muito afinco politicamente, e não abordarem assuntos tão sérios como se fazia na geração anterior. O foco já não é fazer shows em comunidades e conscientizar a população espalhando mensagens de união do povo na luta contra o sistema desigual, e sim ganhar muito dinheiro fazendo shows em “baladinhas de classe média”, mudar de vida e ostentar o sucesso financeiro.

Em entrevista ao Rap Box, portal de fomento à cultura Hip Hop, com mais de 2 milhões de inscritos no You Tube, os integrantes do grupo Recayd mob, assumem copiar os gringos, demonstram pouca preocupação com a função social da cultura Hip Hop e ainda sugerem que o trap deve superar o funk carioca no Brasil.

Veja a transcrição de um trecho da entrevista feita por Léo Casa 1 com os trappers da Recayd Mob, em 2017:


Léo Casa 1 - “Mas pelo jeito cês gosta muito de trap mesmo, né mano? Cês é trap, trap, trap.”

Dfideliz - “A gente vive o trap, a gente vive o trap”

Jé Santigo - “É o que a gente escuta 70% do tempo”

Derek - “A gente só ouve essa parada mesmo”

Jé Santiago - “Não é só ouve, a gente consome, a gente vê, a gente faz igual”


Leo Casa 1 - “E do Brasil cês ouvem? Cês tão acompanhando a cena de Rap, cês gosta de Rap mesmo, nacional?

Dfideliz - “Porra, eu gosto muito, escuto bastante”

Jé Santiago - “Hoje escuto bem mais, depois que eu comecei a fazer Rap passei a escutar mais, mas mesmo assim não tem muita coisa que me agrada não.”

Dfideliz - “É eu nem vou citar nome também, por que em outras entrevista nós já se fudeu por causa disso.”

Derek - “Tipo mano, nacional mesmo mano, Rap, eu consumo bem pouco mesmo, ouço muito funk, samba.”

Dfideliz - “Em casa acho que o Rap é a coisa que eu menos escuto na real mano.”

Jé Santiago - “A maioria desses rappers aí, os mais famosos assim, eu conheço, eu sei o que que eles fazem… a gente escuta, mas não tem muito a ver com o que a gente faz, com o que a gente gosta, o que a gente consome de fora, por que a gente ouve Trap de fora e Trap no Brasil não tem muito artista que me chama atenção”


Léo Casa 1 - “Aproveitando esse gancho aí, fala pra mim dessa cena de Trap no Brasil.”

Dfideliz - “Não é querendo, ah, pá… Mas acho que a gente é os mais influencers assim mesmo. Por que mano, o Trap não é só você pegar um beat, um bagulho agressivo e você falar qualquer coisa, tem essa parada de brincar, tem essa parada do conteúdo, o conteúdo do trap é muito diferente do conteúdo de um Rap de mensagem de um Boom Bap, de um Rap em Jazz, dessas parada, tá ligado? Acho que tem que saber o que falar também, tá ligado?”

Derek - “Tipo, muita gente acha que o Trap é só o beat, tá ligado? Mas não é só o beat. Tipo mano cê tem que ouvir o bagulho e se sentir mano, flexing, tipo o bagulho é cê sentir mano”


Léo Casa 1 - “Cês não se preocupam de ser muito igual aos americanos? De tá copiando demais o bagulho?”

Jé Santiago - “Não, o Rap é americano, não tem como a gente fugir disso”

Dfideliz - “O Trap era uma parada que os americanos usavam… Não era um estilo de música antes, tá ligado? Era uma forma de preparar droga, então tipo veio dessa parada de falar de crime. Por isso que eu falo mano, Trap não é só você falar de qualquer coisa […] Os caras usavam pra falar de crime, usavam pra falar de gangue. É o funk do Brasil. Se você for pro funk do Rio de Janeiro, os caras só falam disso mano, bagulho vivência deles, o trap também, tá ligado? E a gente usa muito isso mano...”

Derek - “Tipo mano, e a gente… no começo, a gente… eu me sentia meio desconfortável quando nego falava que eu tava querendo copiar gringo – ah, cê tá querendo ser gringo – agora não, nego fala – o som de vocês tá tipo ASAP Mob – a gente fica feliz.”

Jé Santiago - “O que interessa no Trap é soar bem, ter um flow da hora, um bagui bem encaixado, um bagui bonito… Ninguém… Eu num tô ligando pra o que você tá falando na música, eu quero que soe bem, eu quero ouvir a música e viajar, achar louco.”

Derek - “O Trap é o novo mercado, que vai chegar muito foda, que até o ano que vem mano, ano que vem, no próximo, vai chegar muito foda mesmo a nível funk.”

Léo Casa 1 - “Cês acham que o Trap tem esse potencial? De popularizar igual ao funk?”

Dfideliz - “Pá caralho mano...”

Jé Santiago – “Nos Estados Unidos já é o estilo mais ouvido”

Léo Casa 1 - “Mas calma aí gente, o funk tem a questão da batida ser mais brasileira, e tem essa questão também dela já estar inserida na favela e na periferia”

Jé Santiago – “ Mas já teve a época que o Rap foi a música número um da favela, tipo anos 90 acho que nas quebrada o que tocava era Rap, tá ligado? Pelo menos…”


Léo Casa 1 - “Por que hoje o que toca é o Funk nas quebradas?” (em tom de ironia)

Jé Santiago - “Hoje é Funk, hoje é incontestável que é o funk, mas quando eu era pequeno, quando eu era criança eu lembro de tocar Facção Central, nos carros, nas ruas, Rap, Racionais, aí a gente perdeu esse espaço pro Funk, mas pode voltar pro Trap.”

A grande questão é que, o Trap nos Estados Unidos, como o próprio Dfideliz disse, é o Funk no Brasil. Lá em Atlanta, faz sentido que eles cantem sobre o tráfico de drogas, as armas, os carros e as prostitutas, pois é essa a realidade vivenciada por esses jovens. Assim como nas favelas do Rio de Janeiro se vive algo similar e isso se reflete nas letras de funk. Mas será que esses representantes da cena trap no Brasil, vivem ou já viveram algo próximo ao que eles cantam?

Ainda na mesma entrevista, ao serem perguntados sobre o que faziam da vida antes de entrar no trap, Derek, Dfideliz, Jé Santiago e Spike respondem:

Dfideliz - “Porra, todo mundo tava na vida bandida”

Jé Santiago - “Eu era muito triste […] eu trampava numa empresa de TI primeiro, trabalhava com TI, cursava desenvolvimento de sistemas, aí eu trabalhava lá sem o dread, cabelo cortado, a gravatinha e pá… aquela coisa toda” […] e eu trabalhava nessa empresa, aí depois eu fui trabalhar na loja “Artwalk”.

Derek - “Mano eu trabalhava em banco, tá ligado? […] Eu trabalhava em banco de cabelo cortado, era estagiário, tá ligado? Era estagiário de banco mano, e antes de estagiário de banco trabalhei em telemarketing também, tá ligado? […] Me xingavam muito. Agora eu só vivo de Rap.”

Dfideliz - “Mano eu trampava na Artwalk também, antes da Artwalk eu trampava numa empresa que revendia peça de moto, era uma parada… nossa… foi o trampo mais frustrante da minha vida mano… papo reto mano […] Aí eu começei… começei não, né? Já fazia música, na verdade como eu te falei (Leo) meu primeiro som foi gravado aqui (RapBox), só que aí tipo, ninguém levava a sério antes… […] Spike eu num sei, já trampou Spike?”

Spike - “Eu ficava vendendo beat… acho que desde os 13 anos eu vendo beat… faço beat… comecei a fazer minha marca também desenvolver umas coisas...”


Apesar da brincadeira de Dfideliz no início, dizendo que estavam todos na “vida bandida”, o que se revela é que na verdade 3 deles tinham empregos formais, o que pra um jovem de 20 à 24 anos que realmente cresceu envolvido no tráfico de drogas, é algo bem difícil de se conseguir. E o produtor, Spike, que nunca trabalhou na vida, diz que vendia beats desde os 13 anos, o que explicita sua boa condição social, pois para fazer beats é necessário ter no mínimo um bom computador, o que é inacessível para os jovens periféricos.

O grupo Recayd Mob, fala de tráfico, ostentação e prostituição o tempo todo nas letras de suas músicas, tendo inclusive no clipe da música “Flack Jack”, lançado em novembro de 2018, utilizado réplicas de fuzis e pistolas e simulado um armazém de produção de drogas. Na letra dessa música MC Igu, que segundo o que Jé Santiago disse na entrevista do Rap Box, nasceu no Japão, vindo para o Brasil já depois de “grande”, de fuzil na mão ele fala:

- “Nunca toca na minha Glock (yeah)/ Romeo 2 e Double Shox (yeah)/ Lá do Maricota pra Santa Cecília/ De 160 de fuga nos homi/ Acelera forte, os malote no tanque/ E o fuzil na garupa/ Pilota com uma mão e atira com a outra/ Especialista em fuga”

Para implicar ainda mais a representatividade do grupo, um jovem da favela do Rio de Janeiro, que é de fato envolvido no tráfico como “aviãozinho”, chamado Meno Tody, lançou, em julho desse ano um trap intitulado “Bailão”, que passou dos 3 milhões de acessos no You Tube, onde ele fala:

- “Perguntou se as armas que eu porto é de verdade, você tá pensando que eu sou da Recayd?”

Em outro verso ele diz:

- “Foda-se seu preconceito se eu sou favelado, e daí se eu tô nesse clipe armado? Quando eu faço isso é apologia é feio, mas os playboy faz e geral acha maneiro.”

Ao mesmo ponto que a ascensão do trap na indústria cultural pode ser benéfica para os jovens periféricos que conseguem entrar no mercado, ganhar dinheiro, sair do crime e ajudar a família através da música, traz consigo certos efeitos colaterais.

Carrega um discurso muito perigoso para os jovens de diversos extratos da sociedade, a apologia às armas e ao tráfico e o incentivo ao consumo de drogas, roupas, acessórios e carros de marcas caras.

Toda essa fetichização do consumo é denotada muito bem no vídeo “Quanto Custa O Outfit?”, do canal de Youtube, Hyped Content Brasil, que mostra jovens da classe média alta de São Paulo que criaram encontros em que eles desfilam para exibir seus trajes exclusivos e caríssimos, todos relacionados à moda do trap, muitos deles deixando até a etiqueta com o preço ainda no produto, para esbanjar aquele status.

É claro que em meio à essa invasão de tendências dentro do Hip Hop, existem aqueles que estão sabendo nadar contra a correnteza, sem perder a postura e nem os valores da cultura.

Black, lançou seu primeiro álbum em julho desse ano, mas apesar de ser novo na cena já fez colaborações com grandes nomes da cena como Choice, Azzy, Sant, Coruja BC1 e Djonga.

Em dezembro de 2018, Black e Djonga colaboraram em uma música de trap chamada “Luto”, que faz críticas diretas à cena atual do Rap.

Logo no primeiro verso Black diz:

“- Não é por que o beat é trap que eu vou falar merda, eu mantenho a minha essência assim como eu prometi pra ela, cês abraçam playboy forjando ser favela, mas não abraça quem vem da favela mandando a real ideia.”

Ele segue no mesmo assunto:

“- Cabeça do ser humano é mó loucura, nós gosta de falar de coisa que nós nunca viu. Se pá, por isso eu falo de igualdade e os playboy insiste em falar que tem droga e fuzil. Falsa vivência é os playboy dizendo que venceu na vida, que virou no rap, com dinheiro do pai ó, cês tem PAItrocínio, nós tem patrocínio, é por isso que pro rolê com nós vocês não vai.”

Em outro verso Djonga diz:

“- Isso é síndrome de Halloween, tira a fantasia que cê não é bandido e seu verso cê não escreveu”

As contradições e problemáticas presentes dentro do trap são notáveis e talvez ainda seja muito cedo para tomar conclusões, seguiremos analisando e buscando respostas para essas questões na segunda parte desta reportagem especial.

1 comentário


Ângela Duarte
Ângela Duarte
28 de ago. de 2019

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